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Quem Paga a Conta da Crise Climática? pesquisa evidencia peso da crise climática sobre mulheres

Para revelar o trabalho feito pelas mulheres e traduzir em números e propostas de políticas públicas, a Hivos, em parceria com o WRI e com pesquisadores da Rede Vozes pela Ação Climática (VAC), lançou os resultados da pesquisa “Custos Sociais e Econômicos da Mudança do Clima sobre Domicílios liderados por mulheres: Evidências do Brasil e da Zâmbia (2022–2025)”. A apresentação aconteceu no ARAYARA Amazon Climate Hub, na manhã desta terça-feira (18/11), durante a COP30, em Belém, e contou com a participação da Ministra do Ministério das Mulheres.

O processo reúne resultados da aplicação de entrevistas em lares liderados por mulheres em áreas rurais e urbanas no Brasil e Zâmbia, apoiado com robusta revisão bibliográfica, para compreender os custos das mudanças do clima na economia doméstica. 

Participaram da iniciativa organizações como Coiab, Rede Jandyras (Mandí), Casa Preta Amazônia, Tapajós de Fato, Instituto Decodifica, Instituto Eqüit e Pimp My Carroça.

Justiça Climática como Ferramenta de Engajamento

Paula Moreira, gerente de engajamento da Hivos no Brasil, explicou o propósito do projeto:
“Queríamos mostrar como os impactos climáticos atravessam a vida doméstica, tanto no Brasil quanto na Zâmbia. Nosso grupo, batizado de Justiça Climática, buscou quantificar essas ‘contas climáticas’: gastos com ar-condicionado, medicamentos devido ao calor ou frio extremos e perda de qualidade de vida.” Ela ressaltou,também, a estratégia de engajamento:
“Realizamos oficinas com jovens e usamos a ideia da ‘conta de eletricidade’ como metáfora para conscientizar, influenciar políticas públicas e promover transformações. Tivemos campanhas, e realizamos a Marcha das Mulheres durante a COP aqui em Belém. Essas parcerias foram riquíssimas e únicas.”

Impactos Sociais e Econômicos

Karen Silverwood, pesquisadora do WRI Brasil, detalhou os achados da pesquisa:
“O conceito de ‘quem paga a conta climática’ é extremamente poderoso. Nosso trabalho reuniu pesquisadores, lideranças comunitárias e representantes do Sul Global. Encontramos custos econômicos e sociais profundos: perda de safra, redução de renda e acesso a crédito, além de impactos graves na saúde psicológica e familiar. Agora, buscamos incidir politicamente a partir desse conhecimento.”

Segundo Karen, o estudo revela que os efeitos das mudanças climáticas recaem de forma desproporcional sobre as mulheres: “A ausência de apoio do Estado é preocupante. Os planos nacionais de gênero precisam ser revisados, incorporando elementos que permitam discussões mais alinhadas à realidade de cada território, para gerar respostas efetivas às desigualdades existentes.”

Perfis e Vulnerabilidades

Eduarda Batista, da Rede Jandyras, apresentou o perfil das participantes no Brasil:
É um prazer apresentar esta pesquisa, da qual participei desde a formação do conselho diretivo e também traduzindo histórias de mulheres da região. A pesquisa abrange cinco estados e doze cidades. A maioria das participantes são mulheres trabalhadoras — empregadas domésticas, trabalhadoras rurais — 72% têm mais de 35 anos, muitas com ensino médio incompleto, e 43% se identificam com alguma etnia ou pertencem a povos indígenas.”

Haydée Svab, da OKBR, explicou os impactos socioeconômicos:
“Os dados deste recorte revelaram que a maioria das mulheres vive com até R$ 2.120 por mês e dedica, em média, 6,4 horas diárias ao trabalho de cuidado, sendo muitas vezes também a principal provedora da família. Os impactos climáticos — enchentes, extremos de calor e chuvas intensas — aumentam deslocamentos, vulnerabilidade e sensação de desamparo. Os gastos de recuperação após eventos extremos podem comprometer até 70% do orçamento doméstico. A ação coletiva surge como principal estratégia de enfrentamento.”

Eduarda Batista acrescentou: “Os eventos climáticos aumentam o peso da economia do cuidado — um custo invisível que recai quase sempre sobre as mulheres. As adaptações feitas são, em geral, informais e sem qualquer apoio financeiro. Em campo, percebemos como gênero, raça e clima se entrelaçam no cotidiano de forma concreta, transformando conceitos teóricos em experiências de vida marcadas por desigualdades profundas.”

Experiências do Campo

João Paulo, pesquisador em Santarém e jornalista da Rádio Banzé e Tapajós de Fato, relatou:
“Foi a primeira vez que muitas pessoas estavam falando sobre os danos causados pelas mudanças climáticas e reconhecendo impactos diretos em suas vidas. Agricultoras familiares têm dificuldade de produzir devido ao aumento da temperatura. Mulheres chefes de família priorizam garantir o alimento, muitas vezes deixando suas próprias necessidades em segundo plano. Também observei processos de violência silenciosa, além da falta de espaços de lazer para crianças fora de casa devido ao calor extremo.”

Tati, da Rede Jandyras, reforçou:
“Apesar de trabalharmos com projetos ambientais, foi outro nível perceber quando fui entrevistada para a pesquisa como as mudanças climáticas afetam diretamente nossa vida e nosso bolso. Sou chefe de família e cheguei a destinar um quarto da minha renda apenas para alimentação. Esta pesquisa contabiliza quanto gastamos para sobreviver, sobretudo, em tempos de mudanças climáticas e nos ajuda a começar a quebrar o ciclo de sobrecarga e exclusão.”

Zâmbia: Impactos Severos e Vulnerabilidade

Mangiza Chirwa, da Hivos na Zâmbia, apresentou dados do país africano, onde mais da metade da população vive com apenas 2,15 dólares por dia e cerca de 9,8 milhões de pessoas são afetadas diretamente pelas mudanças climáticas:

“A Zâmbia enfrenta a temporada agrícola mais seca em mais de 40 anos. A seca já provocou falta de energia elétrica por até três dias em algumas regiões, paralisou a indústria e fez com que pequenos negócios perdessem suas fontes de renda. Quase 50% das colheitas foram perdidas. Mulheres, jovens e grupos vulneráveis são os mais atingidos.”

Ela destacou a insuficiência de soluções pontuais: “Fogões solares ou treinamentos em empreendedorismo não são suficientes para sustentar famílias. Precisamos criar estratégias duradouras para encontrar fontes de renda sustentáveis. Caso contrário, nosso trabalho climático não será justo nem eficaz.”

Mangiza também abordou impactos sobre crianças e saúde:
“Crianças ficam sem escola e sem comida, sendo forçadas a casar ou se prostituir para ajudar financeiramente a família. Doenças como malária e respiratórias aumentam, tornando quase impossível alimentar a família. A agroecologia poderia ser uma estratégia eficaz, mas precisa de incentivo e suporte governamental.”

Justiça Climática e Gênero

A Ministra do Ministério da Mulher, Márcia Lopes, reforçou a importância de colocar as mulheres no centro das decisões:
“Não existe justiça climática sem justiça de gênero. Mulheres são as mais afetadas pelos desastres, mas também protagonistas de soluções. A ação coletiva é essencial: quando fragmentamos as lutas, enfraquecemos os processos.Fazer transição energética justa significa também enfrentar desigualdades e sem coletividade, não chegaremos a lugar nenhum.”

Ela enfatizou,  ainda, a necessidade de atenção às políticas públicas locais:
“Coleta de lixo, bueiros entupidos, contaminação da água e mobilidade são problemas que mostram que não podemos tratar a mudança climática de forma isolada. Devemos fortalecer conselhos participativos e fundos coletivos. Com eleições no próximo ano, é hora de ouvir as mulheres, avaliar representações e levar nossa agenda coletiva a quem tem poder de decisão — no Legislativo, Executivo e Judiciário.”

Ponto de virada

Os painelistas concluíram que a COP30 precisa ser um ponto de virada. “O verdadeiro custo da inação climática não é medido em PIB ou orçamentos de carbono. Ele se manifesta em fome, dívidas, doenças e trabalho não remunerado das mulheres”, concluiu Haydée.

Também ressaltaram que chamadas “contas climáticas” vão além de políticas públicas — são imperativos morais e instrumentos de justiça, traçando um caminho para um futuro onde a transição para energias renováveis seja rápida, justa e financiada, e onde nenhuma mulher precise pagar o preço da inação com seu trabalho ou o futuro de seus filhos.

Ao final, os painelistas propuseram a realização de um encontro entre redes e organizações para iniciar desde já a construção de propostas e estratégias para a próxima COP.

Foto: Oruê Brasileiro/ ARAYARA

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