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Últimas partes do Oceano Ártico cobertas de gelo podem não sobreviver às mudanças climáticas

Últimas partes do Oceano Ártico cobertas de gelo podem não sobreviver às mudanças climáticas

Um novo estudo descobriu que a “última área de gelo”, uma região ártica conhecida por sua espessa cobertura de gelo, pode ser mais vulnerável às mudanças climáticas do que os cientistas suspeitavam.

Esta zona congelada, que fica ao norte da Groenlândia, ganhou este nome porque, embora seu gelo cresça e diminua sazonalmente, grande parte do gelo marinho era considerado espesso o suficiente para persistir durante o calor do verão.

Mas durante o verão de 2020, o Mar Wandel – na parte oriental da área – perdeu 50% de sua concentração de gelo, trazendo a cobertura ao seu nível mais baixo desde que os registros começaram.

No novo estudo, desenvolvido por cientistas da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, os pesquisadores descobriram que as condições meteorológicas estavam causando o declínio, mas as mudanças climáticas tornaram isso possível, diminuindo gradualmente o gelo da área ano após ano. Isso sugere que o aquecimento global pode ameaçar a região mais do que sugeriam os modelos climáticos anteriores.

Ursos polares, focas e morsas correm risco de perderem a última região coberta de gelo nesta área do Oceano Ártico. À medida que a mudança climática derrete outras regiões do Ártico, isso pode significar problemas para os animais que dependem do gelo do mar para se reproduzir.

A área se estende por mais de 2.000 quilômetros, da costa norte da Groenlândia até a parte oeste do arquipélago ártico canadense. Lá, o gelo marinho tem tipicamente pelo menos 5 anos de idade, medindo cerca de 4 metros de espessura.

Como em outras partes do Oceano Ártico, o gelo ali tem se tornado cada vez mais fino.

O estudo, que utilizou dados de satélite e modelos de gelo marinho para descobrir o que criou essa diminuição, apontou que cerca de 80% foi devido a fatores relacionados ao clima, como ventos que quebram e movem o gelo.

Os outros 20% vieram do afinamento a longo prazo do gelo marinho devido ao aquecimento global.

O modelo descobriu que ventos incomuns moveram o gelo marinho para fora da área, mas que a tendência de diluição de vários anos também contribuiu, permitindo que mais luz solar aquecesse o oceano. Então, quando os ventos aumentaram, essa água quente foi capaz de derreter os blocos de gelo próximos.

Em gelo fino

Observações de satélite e modelos climáticos revelaram que, em 2020, ventos incomuns que se moviam para o norte quebraram o gelo marinho e o empurraram para longe do Mar Wandel. Na verdade, a cobertura recorde de gelo marinho em 2020 teria sido menor ainda se não fosse pelo gelo espesso que se infiltrou na área durante os meses de inverno daquele ano.

As extensões mais baixas da cobertura de gelo do Ártico ocorreram nos últimos 15 anos, e as projeções climáticas sugerem que o gelo marinho de verão em todo o Ártico, exceto nesta área, pode desaparecer completamente em 2040.

No ano passado, o Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo (NSIDC), nos Estados Unidos, descobriu que o mínimo de gelo marinho do Ártico atingiu seu segundo ponto mais baixo de todos os tempos (depois de 2012). E embora o novo estudo tenha investigado apenas o Mar Wandel, os dados sugerem que no verão o gelo marinho em toda a última área de gelo também pode estar em risco.

Embora o novo estudo não diga se ou quando a Última Área de Gelo pode derreter completamente, a tendência de derretimento acelerado deve continuar.

As descobertas foram publicadas ontem na revista científica Communications Earth and Environment.

Com informações da Universidade de Washington e Live Science.

Estudo: Usina hidrelétrica na Amazônia contribui com emissões de efeito estufa significativas

Estudo: Usina hidrelétrica na Amazônia contribui com emissões de efeito estufa significativas

Foto: Usina Hidrelétrica de Belo Monte (PA) |

O aumento da demanda de energia em escala global aumentou o número de projetos hidrelétricos em rios tropicais. Essa tendência tem chamado a atenção para os resultados negativos do represamento de grandes rios da bacia do Rio Amazonas, onde se espera que centenas de hidrelétricas tenham impactos nas comunidades ribeirinhas e nos ecossistemas.

As emissões de gases de efeito estufa representam uma questão crítica no debate sobre os benefícios versus custos socioambientais da expansão hidrelétrica na Amazônia.

Foram construídas centenas de usinas hidrelétricas na bacia amazônica para aproveitar a energia supostamente “verde” gerada por seu complexo de rios.

Mas os pesquisadores do clima agora sabem que a energia hidrelétrica não é tão boa para o meio ambiente quanto se pensava. Embora nenhum combustível fóssil seja queimado, os reservatórios liberam milhões de toneladas de metano e dióxido de carbono à medida que a vegetação se decompõe debaixo d’água.

As chamadas usinas hidrelétricas a “fio d’água”, como Belo Monte ao longo do Rio Xingu, que têm reservatórios menores e canais que permitem a redução do fluxo do rio, deveriam resolver o problema, mas um estudo publicado na revista científica Science Advances descobriu que não é bem assim.

A equipe do pesquisador de clima Dailson Bertassoli estudou as emissões de metano e dióxido de carbono durante os primeiros dois anos de operação de Belo Monte e comparou os resultados aos níveis anteriores ao enchimento dos reservatórios, descobrindo um aumento de três vezes nas emissões de gases de efeito estufa.

“Depois de inundar a terra seca, a matéria orgânica que ficou presa no solo começa a se degradar”, disse à Agence France-Presse o professor de geologia e mudanças climáticas da Universidade de São Paulo. “Em vez de um rio natural, temos agora um reator que favorece a produção de metano”, acrescentou.

Andre Sawakuchi, professor da Universidade de São Paulo com foco em mudanças climáticas e sistemas fluviais e que também participou do estudo, acrescentou que esta análise destaca duas questões a serem consideradas na construção de usinas hidrelétricas na região.

Um é o impacto ambiental local sobre as espécies aquáticas exclusivas da área e o outro é o impacto social nas comunidades indígenas que vivem ao longo do rio.

Grupos indígenas e ambientalistas protestaram contra a construção proposta de Belo Monte na década de 1990, fazendo com que fosse abandonado antes de ser revivido como uma usina a fio d’água em 2011.

Grupos ambientalistas protestaram contra a perda da floresta que precisou ser derrubada para o local, enquanto grupos indígenas resistiram à perda de terras inundadas e redirecionaram ou desviaram o fluxo natural do rio.

Sawakuchi argumenta que é importante manter o fluxo do rio, apesar do aumento da necessidade de energia, e não “interromper esse ciclo natural com usinas hidrelétricas de qualquer tipo”.

Os autores concluíram em seu estudo que se o Brasil continuar construindo usinas a fio d’água ao longo da Amazônia, é importante pelo menos evitar inundações de vegetação, aumentando assim os gases de efeito estufa.

Um estudo de 2019 da Environmental Defense Fund (EDF) descobriu que algumas das usinas hidrelétricas do mundo são sumidouros de carbono – o que significa que absorvem mais carbono por meio da fotossíntese por organismos que vivem na água do que emitem por decomposição – , enquanto outros têm pegadas de carbono iguais ou maiores do que os combustíveis fósseis.

De acordo com o estudo, das quase 1.500 usinas em todo o mundo que a EDF examinou e são responsáveis ​​por metade da geração hidrelétrica global, mais de 100 instalações têm emissões de GEE que causam mais aquecimento do que os combustíveis fósseis.

Com informações da Agence France-Presse

Carta aberta para o estabelecimento de um novo Relator Especial da ONU sobre Direitos Humanos e Mudanças Climáticas

Carta aberta para o estabelecimento de um novo Relator Especial da ONU sobre Direitos Humanos e Mudanças Climáticas

Foto: Reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU |

Uma carta publicada pela Federação Internacional de Direitos Humanos – assinada pela Fundação Arayara Brasil e Fundação Arayara Uruguai, junto à Coalizão Não Fracking Brasil e Fé, Paz e Clima, além de centenas de organizações pelo mundo – demanda urgência ao tratar das mudanças climáticas e seus impactos cada vez mais graves para a sociedade e o planeta.

A carta pede, ainda, que seja definido um novo Relator Especial sobre Direitos Humanos e Mudanças Climáticas na ONU.

Leia, abaixo, a tradução:

Como a 47ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU (CDH) está ocorrendo de 21 de junho a 15 de julho de 2021, a sociedade civil abaixo assinada e as organizações de Povos Indígenas apelam aos Estados membros da ONU, através do CDH, para estabelecer nesta sessão um novo Relator Especial sobre Direitos Humanos e Mudanças Climáticas na ONU.

As mudanças climáticas são uma ameaça existencial para a humanidade, colocando em risco a realização de todos os direitos humanos para as gerações presentes e futuras. À medida que os impactos da crise climática se agravam e agravam as formas de discriminação contra diversos povos, indivíduos e grupos em nossas sociedades, a ação não pode mais ser adiada no CDH e medidas urgentes de proteção às pessoas e ao planeta devem ser adotadas. A questão das mudanças climáticas não pode ser deixada apenas para diálogos interativos interessantes ou para os diferentes procedimentos especiais existentes para abordá-la quando possível, mesmo que suas várias contribuições tenham sido notáveis.

A criação de um mandato dedicado de Relator Especial com foco nos desafios da mudança climática é uma solicitação de longa data de um número crescente de organizações da sociedade civil e de Povos Indígenas, visto que um mandato dedicado permitiria ao CDH elevar seu trabalho sobre as mudanças climáticas de forma sistemática e sustentável, proteger as pessoas das mudanças climáticas descontroladas e seus impactos inevitáveis ​​e promover o respeito pelos direitos humanos nas respostas climáticas. Simplificando, as mudanças climáticas devem ser uma prioridade mais alta no CDH.

Em 2019, as Ilhas Marshall, em nome do Fórum Vulnerável ao Clima (CVF), solicitaram a criação de um Relator Especial do CDH dedicado aos direitos humanos e mudanças climáticas na 25ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Nos últimos dois anos, essa proposta ganhou força entre os Estados. Durante a 46ª sessão do HRC em março de 2021, em um movimento sem precedentes, um grupo interregional de 56 Estados juntou-se a Bangladesh em uma declaração que conclamava os membros do Conselho a considerarem a criação deste novo mandato.

Agora é hora de agir com base nessas declarações. Nós, abaixo assinados, reiteramos assim nosso apelo instando os Estados a estabelecer um novo Relator Especial sobre direitos humanos e mudança climática na 47ª sessão do Conselho de Direitos Humanos.

A carta original, em inglês, pode ser lida abaixo e aqui.

UN: Open letter for the Establishment of a new UN Special Rapporteur on Human Rights and Climate Change

As the 47th session of the UN Human Rights Council (HRC) is taking place from 21 June to 15 July, 2021, the undersigned civil society and Indigenous Peoples organizations call on the UN member States through the HRC to establish at this session a new UN Special Rapporteur on human rights and climate change.

Climate change is an existential threat for humanity, jeopardizing the realization of all human rights for present and future generations. As the impacts of the climate crisis worsen and aggravate intersecting forms of discrimination against various peoples, individuals and groups in our societies, action can no longer be postponed at the HRC and urgent measures to protect people and the planet must be adopted. The issue of climate change cannot only be left any more to interesting interactive dialogues or to the existing different Special Procedures to address it when they can, even if their various contributions have been remarkable.

The creation of such a dedicated Special Rapporteur mandate focusing on the challenges of climate change is a longstanding request by a growing number of civil society organizations and of Indigenous Peoples, given that a dedicated mandate would enable the HRC to elevate its work on climate change in a systematic and sustainable way, protect people from runaway climate change and its unavoidable impacts, and promote respect for human rights in climate responses. Simply put, climate change must be a higher priority at the HRC.

In 2019, the Marshall Islands, on behalf of the Climate Vulnerable Forum (CVF), called for the creation of a dedicated HRC Special Rapporteur on human rights and climate change at the 25th Conference of the Parties to the UN Framework Convention on Climate Change. In the past two years, this proposal has gained momentum amongst States. During the 46th session of the HRC in March 2021, in an unprecedented move, a cross-regional group of 56 States joined Bangladesh in a statement that called upon Council members to consider creating this new mandate.

It is now time to act on these statements. We, the undersigned, thus reiterate our call urging States to establish a new Special Rapporteur on human rights and climate change at the 47th session of the Human Rights Council.

As mudanças climáticas, a pior seca do século e a crise energética

As mudanças climáticas, a pior seca do século e a crise energética

Milhões de brasileiros enfrentam a escassez de água e o risco de apagões de energia nesta que é considerada a pior seca em quase um século no Brasil, prejudicando ainda mais nossa recuperação dos impactos devastadores da pandemia.

O volume de chuva registrado desde outubro é o menor dos últimos 91 anos. O nível das águas nos reservatórios do sistema Cantareira, que atende mais de 7 milhões de pessoas na cidade de São Paulo, caiu para menos de um décimo de sua capacidade este ano.

Também é preocupante a situação dos reservatórios de hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste, que respondem por mais da metade da capacidade de geração do país. A previsão do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é de que os reservatórios devem chegar a novembro com 10,3% da capacidade – o menor nível mensal em 20 anos.

Como a energia hidrelétrica responde por cerca de 70% da matriz elétrica do Brasil, a seca também reduziu a produção de eletricidade. Isso forçou uma mudança para a geração de energia por termelétricas, mais cara, aumentando os preços da eletricidade para empresas e consumidores.

Em abril, as contas de luz foram fechadas com bandeira amarela, que representa R$ 1,34 a mais a cada 100 kWh. Já em maio, passou para bandeira vermelha 1, onde é cobrada uma taxa adicional mais alta, de R$ 4,169 para cada 100 kWh. Em junho, as faturas terão a bandeira mais cara do sistema, chamada “vermelha 2”, que representa uma cobrança adicional de R$ 6,24 para cada 100 kWh, mas que deve aumentar esse valor para R$ 10, a partir de julho, pelos cálculos da Aneel.

Um ciclo vicioso de impactos negativos

Não é nenhuma novidade que nosso modelo atual baseado em energia hidrelétrica e térmica não é sustentável. O aumento das secas pressiona os reservatórios das hidrelétricas e a resposta que temos é o acionamento das termelétricas – que, além de custar caro, aumenta as emissões de gases de efeito estufa e agrava o problema.

Hoje, a mudança climática, impulsionada pelo aumento das emissões de gases que retêm o calor, está desempenhando um papel decisivo no aumento da gravidade da seca por meio de suas influências na chuva e na evaporação.

Assim como as mudanças climáticas agravaram muitos eventos climáticos extremos, o excesso de calor agora preso no sistema climático retira mais umidade do solo, piorando as condições de seca.

Uma pesquisa da Michigan State University, nos Estados Unidos, aponta que o número de pessoas que enfrentam secas extremas pode dobrar até o final do século. Eles preveem que uma grande redução no armazenamento natural de água em dois terços do mundo, causada pela mudança climática, vai piorar o problema.

Os pesquisadores basearam o estudo em um conjunto de 27 simulações de modelos climáticos hidrológicos globais abrangendo 125 anos.

Preocupação global

Volumes reduzidos de neve acumulada, derretimento precoce da neve e mudanças nos padrões de precipitação – também ligados às mudanças climáticas – agravam o estresse hídrico induzido por secas. E para vários eventos individuais em todo o mundo, os cientistas atribuíram o aumento da probabilidade e gravidade das secas às mudanças climáticas causadas por nós mesmos.

Nos Estados Unidos, a seca intensa e o calor recorde atingem a região oeste. Os impactos do clima extremo são claros – concessionárias de eletricidade estão pedindo aos consumidores que racionem energia e água, agricultores estão lutando para vender ou economizar seus produtos e as autoridades estão fazendo planos para manter as comunidades seguras. Tudo antes de chegar o verão (que, nos EUA, inicia no final de junho).

Na Europa, a Alemanha enfrenta uma potencial escassez de água potável. Desde 2018, chove muito pouco no país e os períodos persistentes de seca estão tendo consequências de longo alcance.

Somente em agosto do ano passado, várias cidades alemãs foram parar nas manchetes, depois que a água potável tornou-se tão escassa que as autoridades locais tiveram que emitir diretrizes rígidas de economia de água.

Todas as evidências apontam em uma direção: os países devem acelerar urgentemente suas transições para a energia limpa. Isso é fundamental para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas – e para construir um futuro mais saudável, no qual todos tenham acesso a fontes de energia sustentáveis ​​e acessíveis.

Mudanças climáticas em pauta: Ações e resultados históricos mostram a força das novas gerações

Mudanças climáticas em pauta: Ações e resultados históricos mostram a força das novas gerações

“Como pode o homem viver e esquecer o futuro? Sabe que ele planta hoje e amanhã os jovens que colherão os frutos”. A letra da música Mundo Jovem, da cantora Negra Li, traduz um pouco do sentimento desta nova geração, que entende bem o que os aguarda se as lideranças mundiais continuarem empurrando para o futuro ações emergenciais para salvar o planeta.

Há poucas semanas, uma decisão judicial surpreendeu a Alemanha e mostrou ao mundo do que essa nova geração é capaz. Considerada histórica, a decisão apontou que a lei climática do país é parcialmente inconstitucional e ordenou que o governo estabelecesse metas claras de redução de emissões após 2030.

Isso tudo porque jovens do movimento Fridays for Future – iniciado pela jovem Greta Thunberg – e outras organizações demandam mudanças argumentando que a atual lei da chanceler Angela Merkel joga grande parte da responsabilidade de cortar emissões de gases de efeito estufa para o futuro, levando os jovens a realizar sacrifícios muito maiores para evitar o aquecimento global.

Por conta da decisão, o governo alemão está aumentando sua ‘ambição climática’ para atingir as emissões líquidas zero até 2045, refletindo a demanda pública por políticas climáticas e sustentáveis.

O ministro das finanças Olaf Scholz e o ministro do meio ambiente Svenja Schulze anunciaram as metas propostas a serem pressionadas em Berlim: uma redução de emissões de 65% até 2030, 85-90% até 2040 e emissões líquidas zero até 2045, todas comparadas aos níveis de 1990. Anteriormente, as metas eram de 55% até 2030 e neutralidade climática até 2050.

A Alemanha passa a ter a segunda maior meta de redução de emissões para 2030 de qualquer grande emissor, em comparação com os níveis de 1990, depois do Reino Unido. Seria a maior economia a se igualar à ambição zero líquida da Suécia em 2045.

Brasil segue o mesmo caminho

No Brasil, jovens ativistas também fizeram história com uma ação sem precedentes no mês passado, processando o governo brasileiro por revisar seus compromissos sob o Acordo de Paris de uma forma que permita ao país emitir mais gases de efeito estufa – a agora conhecida pedalada climática. A iniciativa partiu de jovens ativistas do Fridays For Future Brasil e do Engajamundo.

A ação busca anular os compromissos revisados ​​de emissões que o Brasil apresentou em dezembro, o que permite o aumento das emissões de gases de efeito estufa em 400 milhões de toneladas em 2030, em relação ao que havia sido estimado anteriormente.

A mudança foi considerada uma violação do Acordo de Paris, que só permite aos países aumentar o nível de ambição de seus NDCs, não reduzi-lo.

“Foi a primeira vez que jovens processaram o governo e isso é muito importante. O governo da Alemanha, apesar do lado político, pelo menos se mostra disposto a melhorar. O Brasil, ao invés de ser mais ambicioso, está no caminho inverso”, ressalta o ativista Dalcio Costa, de 17 anos, integrante do Fridays For Future Brasil.

“Os movimentos jovens existem desde sempre, mas com a era da internet e um maior acesso às informações e às pessoas, temos ainda mais possibilidades. O FFF teve início com protestos – presenciais e digitais -, mas agora também estamos ocupando nossos espaços na justiça, com ações judiciais e mobilizações. Temos um acesso e um contato com a política que antes não existia. Está ocorrendo uma ação de empoderamento jovem, de ocupar nosso lugar”, complementa.

O Instituto Internacional Arayara e o Fridays For Future Brasil têm se reunido semanalmente em oficinas de capacitação para trocar experiências, conhecimentos e organizar campanhas de mobilização.

“Depois que entrei para o FFF e tive acesso à Arayara posso dizer que cresci bastante no ativismo. Nós prezamos muito por ouvir e trocar porque essas relações com outros movimentos são muito importantes. O FFF no Brasil é relativamente novo. A Arayara, com a luta de anos contra os combustíveis fósseis e pelas energias renováveis, tem nos ensinado muito sobre isso. E ficamos felizes também com essa troca, porque aprendemos, ouvimos e somos ouvidos”, finaliza Dalcio.

Para a diretora do Instituto Internacional Arayara, Nicole de Oliveira, a parceria tem reforçado os movimentos. “Quando unimos diferentes gerações dentro de um mesmo objetivo, que é o de defender um mundo mais sustentável e justo, o resultado é uma infinidade de ideias, ações e projetos concretos que se complementam. O momento que vivemos é de urgência e vemos, cada vez mais, essas forças jovens concentradas no mesmo propósito”.

Nova geração se destaca, também, nas pesquisas

Pesquisas recentes têm apontado para uma preocupação maior relacionada ao futuro do planeta entre jovens. No Reino Unido, quase um quarto dos jovens de 15 a 18 anos considera seguir uma carreira no combate às mudanças climáticas, de acordo com uma nova pesquisa da Royal Society of Chemistry (RSC).

Outras descobertas da pesquisa revelam que mais da metade dessa faixa etária pensa que a mudança climática é o maior problema que o mundo enfrenta hoje.

A pesquisa também mostra que os jovens acreditam que a ciência desempenha um papel significativo no combate às mudanças climáticas, com 26% deles dizendo que os cientistas têm o maior papel a desempenhar na abordagem ao tema.

Outro estudo recente mostra que cerca de 83% dos americanos da geração Z – pessoas entre 14 e 24 anos – estão preocupados com a saúde do planeta e dizem que a qualidade de seu meio ambiente afeta sua saúde e bem-estar.

No Brasil, uma pesquisa inédita – divulgada em fevereiro – sobre a percepção dos brasileiros em relação às mudanças climáticas e as queimadas na Amazônia, mostra que 77% dos brasileiros consideram a preservação mais importante do que o crescimento econômico.

A pesquisa foi realizada pelo IBOPE Inteligência a pedido do Instituto de Tecnologia e Sociedade – ITS Rio, em parceria com o Programa de Comunicação de Mudanças Climáticas da Universidade de Yale, dos Estados Unidos.

No cenário das mudanças climáticas, os brasileiros são quase unânimes (92%) em acreditar nos processos de aquecimento global a que o mundo está submetido, e cerca de oito em cada dez consideram que ele é causado principalmente pela ação humana (77%).

A pesquisa mostra que os jovens e os mais escolarizados, no cenário geral, são os que mais se importam com o aquecimento global.

O Rio Grande do Sul em um cenário de mudanças climáticas

O Rio Grande do Sul em um cenário de mudanças climáticas

Fonte: Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Reportagem: Bibiana Davila (Estudante de Jornalismo da UFRS)
Ilustrações: Clara Santi (capa) / Tábata Costa

Há uma ameaça global que promete dizimar a humanidade — mas não se trata de nenhum vírus mortal. Há anos vista apenas como uma verdade inconveniente, a mudança climática já começou a destruir a realidade que conhecemos, mas ainda vai piorar. E muito.

Não são apenas os ursos polares que devem sentir o chão se desmanchando sob seus pés — a arenização do solo gaúcho, intensificada pelo desmatamento da Amazônia, já avança no sudoeste do estado. Enquanto isso, ano após ano, as temperaturas mínimas sobem, os dias frios diminuem e os pomares sofrem. Acordar com a expectativa de ver um mundo branco de geada? Não mais. No Rio Grande do Sul, o futuro será pintado com cores de chuva e tempestade.

Podemos esperar mais ondas de calor, seguidas por perdas agrícolas; mais ciclones, vendavais e enxurradas; aumento das temperaturas, das doenças tropicais; até a chegada da fome, do colapso econômico. Podemos ver dias de migração e conflitos climáticos. Tudo pontuado pela injustiça da desigualdade social, de gênero, racial.

É provável que você já acredite em tudo isso: 92% dos brasileiros estão cientes das mudanças climáticas, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) de 2020. É até possível que você esteja preocupado, como 61% da população. Mas, como 75% das pessoas no país, talvez você também esteja mal informado.

Por isso, apresentamos a seguir a atual história do futuro climático do Rio Grande do Sul. Há tendências em curso e projeções do que está por vir, baseadas no que a ciência nos mostra. Lembre-se, porém: isto não é uma profecia. É um sinal de alerta.

A MUDANÇA CLIMÁTICA

Maíra Suertegaray, professora de Geografia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), estuda o clima e escreve livros infantis que abordam a temática.

“As pessoas normalmente relacionam o aquecimento global e mudanças climáticas a catástrofes, mas não, as mudanças estão acontecendo gradualmente e já trazem consequências”, destaca.

Existe, no entanto, um bom número de catástrofes possíveis. Olhando um pouco mais à frente, principalmente para as últimas duas décadas do século 21, não faltam cenários assustadores para a humanidade — como descrito em detalhe nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

É importante saber sobre o quinto e último relatório do Painel, de 2013, que: 1) há 95% de certeza que a ação humana está causando o aquecimento global, graças à queima de combustíveis fósseis, desmatamento e agropecuária, entre outras atividades industriais que emitem gases responsáveis pelo atual “efeito estufa”; 2) há modelos otimistas e pessimistas sobre o que nos espera, baseados nas taxas de emissão destes gases e medidas de mitigação, em um futuro próximo; 3) a temperatura média global pode registrar, até o final do século, um aumento entre menos de 2ºC (otimista) até mais de 4,8°C (pessimista).

Mantendo o ritmo atual, sem diminuir a emissão dos gases do efeito estufa ou sem dar um jeito no que já jogamos na atmosfera desde que aprendemos a queimar carvão durante a Revolução Industrial, caminhamos a passos largos para o aumento acima de quatro graus até 2100.

Neste futuro, a combinação de temperaturas altas e umidade transformará certas regiões das Américas, Ásia, África e Oceania em locais inabitáveis para seres humanos em partes do ano, com impossibilidade de plantio de alimentos ou mesmo de trabalho ao ar livre. O aumento exponencial dos desastres climáticos, do nível dos oceanos, da poluição do ar e falta de água ainda devem gerar uma instabilidade social que ameaça economias, governos e a própria democracia. Não haverá recursos para todos, e os refugiados chegarão a milhões de pessoas.

A catástrofe, no entanto, não é um destino em que esbarraremos no futuro, mas o caminho que estamos trilhando até lá. Antes de chegar a ele, vamos passar por todas as pequenas mudanças graduais no dia a dia, como alerta Maíra. Quando se presta atenção, é possível ouvir o gelo quebrando sob nossos pés. Escute.

Arte: Tábata Costa

CHOVER MUITO E, DEPOIS, NADA

O sol não vai brilhar no futuro do Rio Grande do Sul — ou quase isso. Pesquisadores já observaram que a duração do brilho solar vem diminuindo ao longo do tempo, sendo que, de 1950 a 2009, os gaúchos perderam 248 horas de sol no ano. No horizonte, há nuvens de chuva, literalmente: o estado registrou 10% de aumento da precipitação pluvial entre 1980 e 2009, comparado ao período de 1950 a 1979.

Mas há uma pegadinha: a chuva é cada vez mais intensa e concentrada, o que é ruim para cidades, humanos e para o solo. Isto é especialmente verdadeiro para a região da Campanha, onde os areais assombram a população há tempos. Não, não se trata de um deserto nascendo na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Porém, os regimes de chuvas intensas, intercalados com períodos de estiagem, resultam nesta arenização, que remete ao Saara ou ao Atacama.

Como tantos outros processos naturais, tal arenização está sendo intensificada pela mudança climática. A conclusão é do pesquisador Fabio Sanches, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que analisou quase um século de registros pluviais da região e percebeu que há uma intensificação na frequência e magnitude dessas chuvas.

E há mais nuvens a caminho: a partir de projeções feitas considerando um cenário intermediário de emissão de gases do efeito estufa, ele constatou que de 2011 a 2099, a região dos areais pode ver um incremento na ordem de 52,4 milímetros para os meses de janeiro, 72,8 milímetros para março e 52,2 milímetros para outubro. É a receita perfeita para favorecer a dinâmica de arenização natural.

As mudanças que têm ocorrido nas condições climáticas não são tão imediatas. Você não vai dormir em uma condição e acordar em outra”

Fabio Sanches, pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

Mas de onde vem tanta água? “Vem da Amazônia. E daí você tem que ir lá para o Norte e entender a relação que ocorre na floresta, da circulação atmosférica, e o transporte dessa umidade pelos ventos, os chamados jatos de baixos níveis, popularmente conhecidos como os rios voadores”, explica Fabio.

Como num efeito dominó, o desmatamento da Amazônia piora o cenário da mudança climática de inúmeras formas. Há o carbono liberado pelas árvores queimadas e o carbono que elas deixam de consumir uma vez mortas. A floresta desmatada também deixa de capturar a umidade do Atlântico, impactando o regime de chuvas de todo o sudeste da América do Sul. E, quase sem perceber, é algo que já estamos registrando há mais de 40 anos no estado.

Fonte: Ana Paula Assumpção Cordeiro; 2010

“Quando você fala em mudança do clima, o senso comum leva a crer que você vai abrir uma porta e estar em outro ambiente”, comenta Fabio. “As mudanças que têm ocorrido nas condições climáticas não são tão imediatas. Você não vai dormir em uma condição e acordar em outra”, ressalta. Ou seja, as transformações já estão em curso, e as escolhas que tomamos hoje impactam o quão distópico será o amanhã.

A Campanha, no entanto, não é a única região que está sofrendo com dias em que chove o esperado para um mês inteiro. No extremo leste do estado, a pesquisadora Venisse Schossler, do Centro Polar e Climático da UFRGS, também se preocupa com estes níveis de precipitação intensa. Em parte, pelos desastres em potencial que eles carregam consigo; e, também, porque eles acabam mascarando certos dados.

Ao analisar o impacto das mudanças climáticas na região Costeira do Rio Grande do Sul, a pesquisadora constatou que tanto o litoral médio quanto o sul estão entrando em períodos de estiagem, potencializados por processos como o La Niña e a Oscilação Antártica positiva. Ora, o clima do estado sempre esteve suscetível a essa dinâmica — com o El Niño sendo uma figurinha carimbada na hora da previsão do tempo na TV. Mas a amplificação de ambos os ciclos, à medida que o Oceano Pacífico se aquece, preocupa. Principalmente quando o resultado são secas prolongadas, como Venisse constatou.

“A gente tem uma intensificação desses El Niños e La Niñas a partir da metade da década de 1980, tem a Oscilação Antártica em fase positiva preponderantemente há 50 anos. Então, realmente, caminhamos para um período de maior estiagem na nossa região”, explica a pesquisadora. “Mas por que não percebemos isso nos nossos volumes de precipitação? É porque temos eventos de precipitação extremos em contrapartida, como constatamos em nosso laboratório”, esclarece.

Assim, estamos caminhando para um ciclo em que dias de falta d’água serão intercalados com dias em que a água desce em cidades como em um novo dilúvio.

DESASTRES NÃO NATURAIS

Para onde vai tanta água? Principalmente, para a conta dos desastres nem tão naturais. Karina Lima, doutoranda também do Centro Polar e Climático da UFRGS, concluiu que o estado teve cerca de R$11,436 bilhões de prejuízo entre 2011 e 2018 por causa dos eventos causados por tempestades e elevados índices pluviométricos. E a tendência, ela avisa, é piorar.

“Por mais que eventos extremos sempre tenham existido, o aquecimento global aumenta sua probabilidade de ocorrência”, explica Karina. “Alguns relatórios já observam mudanças nos padrões desses fenômenos severos ao redor do mundo, como a maior quantidade de eventos de chuvas intensas e secas em algumas regiões.”

Analisando a série histórica de 1972 a 2015, a gestora ambiental Stefania Hoff Ambos identificou pelo menos 132 eventos climáticos no Litoral Médio do Rio Grande do Sul que causaram efeitos desastrosos. Como esperado, a frequência deles vem aumentando nas últimas décadas, assim como o número de municípios atingidos.

Fonte: Stefania Hoff Ambos; 2016 (adaptado)

Estes eventos têm consequências diferentes. As chuvas intensas, por exemplo, foram identificadas por Karina como os desastres que mais causaram prejuízos econômicos, junto às enxurradas e inundações. Nossas cidades simplesmente não estão preparadas para receber volumes de água tão grandes, e as comunidades mais pobres tendem a ser as mais atingidas — o que coloca essas catástrofes duplamente em nossa conta.

“O Rio Grande do Sul está localizado em uma região favorável a condições de tempo severo devido a características de sua geomorfologia e circulação atmosférica. Mas o desastre, mesmo quando considerado ‘natural’, só ocorre se houver uma vulnerabilidade. Se um tornado, por exemplo, não causar danos humanos, materiais ou ambientais, ele não será considerado um desastre”, explica a pesquisadora.

NOITES QUENTES, DIAS MAIS QUENTES AINDA

O aquecimento global não vai deixar de aquecer o Rio Grande do Sul, apesar de o estado ter uma situação bem mais confortável que o resto do Brasil. Confortável, aqui, é um termo relativo: num cenário otimista, vamos ver um aumento ameno, capaz até de diminuir algumas calamidades geradas pelos meses frios; num cenário pessimista, em que seguimos emitindo carbono como se nada estivesse ocorrendo, acabamos com até 3°C extras na temperatura média regional.

Já temos mais noites quentes hoje do que há 30 anos, e as temperaturas mínimas sobem, ao passo que os dias com registro de geada diminuem. As temperaturas máximas ainda se mantêm perto do que conhecemos, mas a média sobe e a amplitude térmica é cada vez menor.

Nas nove décadas que separaram 1913 de 2003, por exemplo, o estado registrou um aumento da temperatura mínima média anual de 0,16 °C a cada 10 anos. O que parecia pouco, se transformou em um aumento médio de 1,5º C em menos de um século. Na temperatura média anual, pesquisadores apontam que passamos de 18,6ºC para 19,1ºC no curto período de 1961 a 2006 — e a tendência é continuar subindo. Aos poucos, deixamos o clima temperado para trás.

Até chegarmos a 45,72⁰C em Porto Alegre. Essa é a temperatura que a capital pode estar registrando no final do século, aponta uma pesquisa na pós-graduação em desastres naturais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). As projeções, feitas a partir de modelos climáticos do Hadley Centre, centro de estudos do Reino Unido, tomando um cenário em que nada seja feito para diminuir as emissões de gases, ainda sentenciam a cidade a um aumento das ondas de calor cada vez mais intensas e duradouras.

A preocupação não é apenas com o futuro: o mesmo estudo expõe que tivemos um aumento vertiginoso dessas ondas nos últimos anos. Após 50 anos com no máximo quatro ondas de calor por década, pelo menos 11 fenômenos foram registrados entre 2010 e 2018 em Porto Alegre.

Não há uma definição unânime para as ondas de calor, que de modo geral descrevem um período prolongado de tempo excessivamente quente para determinada estação do ano. Nesta análise, foi seguida a descrição da Classificação e Codificação Brasileira de Desastres, segundo a qual uma onda de calor requer no mínimo três dias consecutivos com temperaturas 5°C acima dos valores máximos médios para a época.

Representação visual da temperatura média no RS | Fonte: Ed Hawkins, University of Reading (adaptado)

Depois da publicação da pesquisa da UFSC, Porto Alegre chegou a ser a capital mais quente do país, com 38,9°C, em dezembro de 2019. Em março de 2020, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) alertava para uma nova onda de calor, também passando dos 38º C. E, em novembro, os termômetros chegaram a 37,7º C na Grande Porto Alegre — a temperatura mais alta para o mês desde 2012. Se os casos isolados não seriam necessariamente um indício de mudança climática, o aumento na frequência deles é inquietante.

Mais do que isso: pensar que essas ondas resultam apenas em alguns dias desconfortáveis de suor é ingenuidade. Estima-se que ao menos 70 mil pessoas morreram na onda de calor mais memorável dos últimos anos, durante o verão de 2003 na Europa, quando muitos idosos perderam a vida sozinhos, dentro de suas casas, devido ao clima.

Mas como se morre de calor? Um estudo publicado no periódico Circulation: Cardiovascular Quality and Outcomes, no ano de 2017, elenca pelo menos 27 diferentes formas pelas quais altas temperaturas levam um ser humano à morte. O calor, os pesquisadores demonstraram, é capaz de desencadear pelo menos cinco mecanismos fisiológicos (isquemia, citotoxicidade ao calor, resposta inflamatória, coagulação intravascular disseminada e rabdomiólise), capazes de afetar criticamente pelo menos um entre sete órgãos vitais (cérebro, coração, intestinos, rins, fígado, pulmões e pâncreas).

MOSQUITOS, DOENÇAS E FOME

Há bem mais do que 27 maneiras de morrer por causa da mudança climática. Além dos impactos diretos já vistos, como das ondas de calor, ainda há um sem número de efeitos indiretos, que passam da poluição do ar à ameaça da fome.

Uma das preocupações no Rio Grande do Sul é o aumento da incidência de certas doenças antes refreadas pelo frio, como é o caso da dengue. Lembra do El Niño? Os pesquisadores Erika Collischonn, Vincent Dubreuil e Francisco Mendonça conseguiram relacionar o aumento da transmissão comunitária de dengue no estado com os ciclos positivos do fenômeno.

Ou seja, à medida que os termômetros sobem junto ao volume de chuvas, o Rio Grande do Sul se torna cada vez mais receptivo ao Aedes aegypt — o mosquito mais famoso do Brasil, transmissor também do vírus de zika e chikungunya. Lembra das projeções de aumento na temperatura média e das chuvas no Rio Grande do Sul? O Aedes vai se sentir em casa.

Quem não estará tão confortável são os agricultores — e todos a quem eles alimentam. Durante a vida na cidade, pode ser fácil esquecer, mas o clima é o fator ambiental chave no desempenho do setor agrícola ano a ano. E, cada vez que uma longa estiagem ou calor fora de época impactam a produção, os efeitos são sentidos na mesa de todos. Será difícil esquecer essa relação se os desastres aumentarem e as produções diminuírem.

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para os riscos que a sociedade corre quando as lavouras de alimentos básicos são prejudicadas pela mudança climática, o que pode levar populações inteiras à desnutrição e até à morte pela fome. Na terra onde um dia “tudo que se plantava crescia”, não será diferente, com os impactos econômicos na esteira da insegurança alimentar.

Com aumento da temperatura média global em 3ºC, já não haverá mais possibilidade de plantio de soja no Rio Grande do Sul, alertam projeções da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Até em um cenário mais otimista, com apenas 1ºC de aquecimento, as perdas são expressivas, segundo dados do fascículo Desafios do Clima.

Também observando dois cenários possíveis, um pessimista e outro intermediário, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta, para toda a Região Sul, perdas na área de plantio do milho, milho safrinha, arroz, feijão, algodão e trigo, devido às mudanças climáticas.

Fonte: Assad et al.; 2016 (adaptado)

Mesmo o futuro da salada de fruta não é promissor: uva, maçã, pêssego e quivi são algumas das espécies que exigem horas e mais horas de frio para se desenvolver. Com temperaturas mínimas cada vez mais elevadas, pesquisadores da Embrapa projetam tempos difíceis pela frente para os mais de 20 mil hectares de pomares gaúchos cultivados com espécies frutíferas que dependem do inverno para “florescer”.

O que ainda pode mitigar parte dos impactos agrícolas, se as mudanças climáticas não forem refreadas, é a adaptação tecnológica e a migração de culturas. Do café arábica à cana-de-açúcar, é possível vislumbrar um futuro em que as lavouras gaúchas sobrevivam, mas com uma nova paisagem como emblema do estado. O custo econômico e social, no entanto, não será barato.

Arte: Clara Santi

E AGORA?

Eis uma resposta que os cientistas ainda não possuem. Adaptação, no entanto, parece surgir como um caminho possível. “Nós, como pessoas normais de carne e osso, temos pouco poder de interferir. Nós temos que nos adaptar. Temos que nos preparar para ser o mais resiliente possível. Então, vamos tentar ser resilientes, vamos tentar nos adaptar”, reflete o professor Fabio.

“Tentar”, veja bem, é a palavra-chave. Ecoa, na fala de todos os pesquisadores, alguma descrença em nossa capacidade de reagir à emergência climática. Integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, Vaneza Pereira recorda que não há nada de novo no front: “Há mais de 50 anos os cientistas discretamente, no início, vem alertando para essas questões ambientais e climáticas, e pouco se avançou no sentido de obter resultados efetivos a esses alertas”. A professora Maíra tem questionamentos similares: “Por que não levamos a sério? Por que não mudamos?”.

Do negacionismo da ciência à conveniência de ignorá-la, não há uma resposta simples à questão, que ainda passa por interesses econômicos e políticos de diferentes corporações e nações. “Quem fica negando que há mudanças no clima é por vários aspectos. Não pense que é só econômico. É ideológico, é religioso. Para muitas pessoas é difícil aceitar que toda a ação não é de Deus. Falta conhecimento”, pondera o professor Jefferson Simões, vice-presidente do Comitê Internacional sobre Pesquisas Antárticas.

Por isso, pesquisadores como Venisse acreditam que é essencial seguir tentando alertar o público. “Qual é o nosso papel como cientista? É divulgar isso de uma maneira acessível. Vamos ter pessoas que nunca vão nos ouvir, que aquela porta está fechada em definitivo, não é? E vão ter aquelas que aos poucos talvez nos acompanhem nessa jornada”, conclui.

Ela não está sozinha. A doutoranda Karina decidiu começar um projeto de divulgação científica no Twitter relacionado à área de climatologia, enquanto Maíra publicou livros infantis como Tudo por causa do pum?, em que um grupo de vacas explicam as causas do aquecimento global. Para Fabio, trata-se de um “trabalho de formiguinha”: “Não é um trabalho de convencimento. É um trabalho de demonstração”.

O QUE PODEMOS FAZER HOJE

“Deveríamos ter consciência de quanto emitimos de carbono com as nossas escolhas. Desde que acordamos até a noite, cada ação nossa está emitindo carbono, então porque não haver uma educação para o clima para as pessoas se perceberem como os responsáveis pelo problema?”, pergunta Vaneza.

Afinal, ninguém é uma ilha, e mesmo as ilhas precisarão enfrentar as mudanças climáticas. A escolha entre carne vermelha ou vegetais, transporte público ou uma viagem de carro, um item local ou um importado, impactam diretamente nessa pegada de carbono que deixamos para trás e no futuro que encontraremos lá na frente. Assim como a decisão de consumir menos, apoiar marcas sustentáveis e produtores regionais.

“Um carbono que foi lançado no finalzinho do século 20 ainda está circulando aqui”, ressalta Fabio, apontando o caráter persistente de nossas escolhas desde já. Do reflorestamento a uma agricultura mais eficiente, passando por novos hábitos de consumo, o professor ainda defende que as medidas de contenção à emergência climática precisam vir de todos os lados. “Não é só o esforço de um. É o esforço de um grande coletivo.”

Karina argumenta que também são necessárias soluções para as mudanças que já estão em curso: “Precisamos, urgentemente, repensar nossas cidades, melhorando o saneamento básico, despoluindo corpos aquáticos e respeitando suas áreas marginais”. Ela apoia a concepção de novos planos diretores e políticas públicas atentas às novas necessidades da população.

“Cedo ou tarde nós vamos tomar essas decisões. O que nós estamos fazendo é postergando decisões sérias que, se tomadas adiantadamente, facilitariam a mitigação do impacto das mudanças climáticas”, afirma Jefferson. Uma solução seria uma revolução pelas urnas, como propõe Venisse: “O processo eleitoral, principalmente do legislativo, é um amparo muito grande nessa luta que a gente tem que travar diariamente”. De vereadores a senadores, os representantes de todas as câmaras têm uma voz importante na discussão das políticas ambientais.

“Nós vamos pagar muito caro, mas, no final, teremos que encontrar uma solução mesmo, por sobrevivência”, especula Jefferson. “Essa solução pode ter uma parte tecnológica, eu acredito que a ciência possa dar uma solução, mas ela é parcial. Porque, se não houver mudança no padrão de consumo e no que nós queremos fazer, não adianta.”

Ou seja, não existe uma saída mágica para as mudanças climáticas, mas há escolhas pela frente. Não somos uma estirpe condenada a 100 anos de solidão sobre a Terra, mas uma espécie capaz de vislumbrar o futuro e de enfrentá-lo, preparada. As projeções estão postas, é hora de agir. Não ignore as luzes de emergência ligadas.

Arte: Tábata Costa

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