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Planejamento energético ignora crise climática e esquece que quando o meio ambiente morre, morremos junto

Hoje, 5 de junho, é o Dia Mundial do Meio Ambiente, instituído em 1972, pelas Nações Unidas. Esse dia nos convida, entre outras coisas, a olhar para os danos causados pelo ser humano em seu próprio habitat. Diversas ações acontecem pelo mundo nesse dia e para além da conscientização, é preciso ação!

 

Enquanto o Brasil segue com planos de devastação e de investimento em energias caras e sujas, tomadores de decisão, governantes, legisladores, em sua maioria, negligenciam o meio ambiente e esquecem (ou não se importam) com o efeito de seus planos. Todos são atingidos por essa devastação ambiental, que gera crise social, econômica e climática, só que em graus diferentes, por enquanto… Será preciso ser tarde demais para que os poderosos sintam sua sobrevivência ameaçada e revisem suas prioridades como seres humanos?

 

Em 2021, o Brasil teve seu pico de produção de energia elétrica, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O feito aconteceu por conta da maior crise hídrica já registrada nos últimos 91 anos. É a terceira em um período de 20 anos, sendo a primeira nos anos 2000, seguida por 2014 e, agora, 2021. A crise hídrica vem sendo usada como desculpa para investir em energias “firmes” que tem efeitos que retroalimentam e agravam a própria crise hídrica, tudo isso por interesses ocultos por vezes bem articulados. No Dia Mundial do Meio Ambiente, o Instituto Internacional Arayara te convida a fazer uma reflexão sobre a produção energética brasileira, a crise climática e o nosso futuro em aspectos de sobrevivência.

 

O Brasil possui como matriz elétrica principal as hidrelétricas. Tidas como uma fonte renovável, automaticamente se adota o discurso de sermos um país sustentável, mas isso está longe de ser verdade. É possível repensar esse argumento analisando, por exemplo, os investimentos contínuos dos últimos anos – e os já fechados para os próximos – nas termelétricas a gás natural, que geram poluição e desmatamento, aumento de gases do efeito estufa (GEEs), encarecimento da conta de luz e uma fala, repetida, de uma energia menos poluente. 

 

As termoelétricas a gás natural são poluentes, ponto. Poluem o ar, o solo, as plantas, colocam em risco as águas, os seres viventes e todos nós. Termoelétricas a carvão e movidas a queima de combustíveis como o diesel, causam mais estragos, obviamente. Porém, o gás natural, que também é um combustível fóssil, gera diversos problemas ambientais desde sua pesquisa, extração e transporte, além da queima em si, então está longe de ser um parâmetro, ou uma “energia de transição” para essa década. Há anos, os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirmam que a transição energética justa é essencial para que a meta principal do Acordo de Paris seja alcançada, barrar o aquecimento da Terra em até 1.5ºC e impedir que extinções em massa aconteçam. Ainda sim, atualmente convivemos com investidores e bancos que investem bilhões em matrizes energéticas sujas, como o petróleo, o carvão mineral, o gás, e os métodos esdrúxulos de extração do mesmo, como o fracking.

 

No Brasil, os subsídios aos fósseis e a privatização da Eletrobrás deixam claro que, a tão citada transição energética justa é desvirtuada de seu sentido e não é prioridade, pois essas ações são ameaças à própria soberania energética do Brasil e são aprovadas a toque de caixa.

 

A Agência Nacional de Petróleo (ANP), põe à venda 1068 blocos de exploração de petróleo e gás a preços insignificantes, enquanto documentos como o Plano Decenal de Expansão de Energia, do Ministério de Minas e Energia (MME), projeta em cerca de 3% o crescimento do gás natural até 2031, com interesses conflitantes com a população e a indústria brasileira que precisa de uma energia mais barata. Não existe trégua para os investimentos nas matrizes energéticas sujas: já existe um novo leilão de Oferta Permanente de Partilha (OPP – Leilão do Pré-Sal) marcado para o final do ano. Serão mais de 10 blocos ofertados, e esse número pode aumentar até lá. Enquanto vendem o Brasil e já falam na privatização da Petrobrás, as futuras gerações estão desamparadas, seu destino não parece ser levado em consideração nas mãos de pessoas preocupadas apenas em encher seus próprios bolsos.

 

Enquanto isso, o meio ambiente no Brasil grita e adoece. Dados do IPCC mostram que a seca será mais intensa e frequente no hemisfério sul, e os padrões de chuva também já estão mudando: ora muito fortes, criando emergências e devastação, como já acontece em todos as regiões do país, ora escassas, prejudicando o fornecimento de água, produção orgânica familiar, a saúde e qualidade de vida da população. 

 

Quanto mais investimento em grandes estruturas que desmatam e mudam a atividade biológica da região, mais intenso é o desequilíbrio ambiental. Somado ao desmatamento crescente, esse é o prato vazio que se entrega ao nosso futuro. O governo brasileiro precisa investir em matrizes elétricas mais sustentáveis, mais baratas, mais limpas e com programas que as tornem acessíveis a todos, de preferência de forma distribuída, para que haja independência energética. Essa é uma das maiores contribuições que podem ser entregues para a sociedade e para o meio ambiente.

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