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Comunidade escolar reage à instalação de usina termoelétrica no Distrito Federal 

Diretora da Escola Classe Guariroba envia carta ao Ibama e denuncia risco de remoção da única escola rural da região

A possível instalação da Usina Termoelétrica (UTE) Brasília, prevista para a região de Samambaia e Recanto das Emas, no Distrito Federal, segue gerando forte reação da comunidade local — especialmente da Escola Classe Guariroba, única instituição de ensino da zona rural na região. A diretora da escola, Nathália Pacheco, encaminhou uma carta ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), denunciando os riscos sociais, ambientais e educacionais do projeto e pedindo a proteção da escola no processo de licenciamento ambiental.

O empreendimento, que será movido a gás natural e terá capacidade de 1.470 MW, está sendo planejado pela empresa Termo Norte Energia. A usina está entre as maiores termelétricas a GNL atualmente em fase de licenciamento no Brasil e será instalada em área sensível, às margens do já degradado Rio Melchior — classificado como Classe IV, o pior nível de qualidade hídrica.

Manifestação simbólica realizada pelos alunos do ensino fundamental  da Escola Classe Guariroba, localizada na  Samambaia (DF).

Escola histórica sob ameaça

Na manifestação enviada ao Ibama, a diretora da Escola Classe Guariroba relembra episódios anteriores de ameaça à instituição. Em 2016, a escola foi transferida para instalações precárias, o que gerou queda nos indicadores educacionais, aumento da evasão escolar e profundo impacto emocional na comunidade. Desde 2018, com a entrega de um novo prédio, moderno e bem equipado, a escola retomou seu papel como referência pedagógica e social para centenas de crianças de famílias agricultoras e chacareiras em situação de vulnerabilidade.

“Ela é mais do que uma escola. É um porto seguro, um símbolo de dignidade e presença do Estado onde, muitas vezes, ele falta”, afirmou Nathália. Segundo ela, a possibilidade de uma nova remoção — desta vez, para dar lugar a uma termoelétrica — reacendeu traumas e causou angústia entre estudantes, educadores e pais. “Todos os dias, as crianças me perguntam, entre lágrimas, se a escola vai ser fechada de novo. Muitas sonham em terminar seus estudos aqui e voltar como profissionais para servir à comunidade.”

Outros Impactos 

A instalação da UTE exigirá a construção de um gasoduto para transportar gás natural, combustível fóssil não disponível no DF. O traçado do gasoduto poderá causar a demolição de casas e prédios, além de comprometer áreas urbanas e rurais. 

Segundo Luiz Eduardo Barata, presidente da Frente Nacional de Consumidores de Energia (FNCE), o projeto não só representa riscos ambientais e sociais, mas também será financeiramente custoso, com impactos diretos na conta de luz dos consumidores.

A Termo Norte Energia estima iniciar as obras em 2031. No momento, o projeto segue em fase de licenciamento ambiental junto ao Ibama.

Pressão popular e vitórias jurídicas

A mobilização contra o projeto tem crescido. A audiência pública para apresentação do Estudo de Impacto Ambiental e do Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), marcada para o último dia 17 de junho, foi oficialmente suspensa pelo Ibama após protestos massivos no Centro Cultural de Samambaia. O evento chegou a ser iniciado, mas foi interrompido após a participação de mais de 400 pessoas que entoaram palavras de ordem como “Xô Termelétrica” e “Salve o Rio Melchior”.

Além da suspensão da audiência, o Instituto Internacional ARAYARA obteve vitórias judiciais relevantes. A Agência Reguladora de Águas do DF (Adasa) suspendeu as outorgas hídricas do projeto após uma Ação Civil Pública ajuizada pela organização — um marco na litigância climática brasileira. Em março deste ano, a 9ª Vara Federal Cível do DF também já havia determinado o adiamento de uma audiência anterior, apontando fragilidades no processo de licenciamento.

“O retrato do racismo ambiental é instalar uma usina que queima gás no coração do Cerrado, às margens de um rio degradado, removendo uma escola pública que representa dignidade para famílias vulneráveis. Samambaia não aceitará esse retrocesso disfarçado de modernização energética”, declarou Juliano Bueno , diretor técnico da ARAYARA.

A luta pela permanência e pela justiça climática

A comunidade da Escola Classe Guariroba pede agora que o Ibama reconheça o valor simbólico e social da escola no processo de licenciamento. “Não se trata apenas de um prédio, mas de um laço profundo com a educação, a dignidade e o futuro dessas famílias”, conclui Nathália.

Enquanto a discussão sobre o projeto avança, cresce também a mobilização de educadores, ambientalistas e moradores da região, que prometem continuar lutando por justiça social, climática e pela permanência da escola onde ela sempre esteve: no coração da comunidade rural de Samambaia.

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