+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Debate destaca estratégias para proteção de defensores de direitos humanos e ambientais

Programa “Defensores dos Defensores”, desenvolvido pelo Instituto Internacional ARAYARA busca fortalecer a proteção de ambientalistas ameaçados

Após o lançamento oficial em Brasília, o Programa Defensores dos Defensores, do Instituto Internacional ARAYARA, foi apresentado em São Paulo, na última terça-feira (25/3), na sede da Defensoria Pública da União na cidade de São Paulo. A iniciativa busca oferecer suporte jurídico, humanitário e psicológico a defensores climáticos ameaçados no Brasil e na América Latina, além de atuar na prevenção de ameaças e no fortalecimento de redes de proteção.

Em seu discurso, a diretora da ARAYARA enfatizou a importância do programa: “O Estado deveria garantir a segurança dessas pessoas, mas, muitas vezes, é ele próprio quem promove ou se omite diante das violações. Nosso programa surge para oferecer o suporte necessário, permitindo que os ativistas continuem lutando por seus direitos, seus territórios, suas famílias e suas vidas”, afirmou Nicole Figueiredo de Oliveira.

Mesa de debate reúne especialistas e lideranças

O evento contou com um debate impactante entre especialistas e lideranças sobre a proteção de defensores de direitos humanos e do meio ambiente. Entre os participantes estavam Claudelice Silva Santos, coordenadora do Instituto Zé Cláudio e Maria, que atua na proteção de ativistas e avanço de políticas públicas para defensores na região do Pará; Beatriz Lourenço, Diretora de Incidência Política e Litigância Estratégica do Instituto de Referência Negra Peregum; o Cacique Awatenondegua, liderança Tupi Guarani e coordenador geral da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sudeste – ARPIN SUDESTE;  e o defensor público Murillo Martins, representante da Defensoria Regional de Direitos Humanos em São Paulo.

A mediação ficou a cargo de Ana Cláudia Mielke, coordenadora do Coletivo Intervozes. A professora Marijane Vieira Lisboa abordou sua experiência como relatora especial para Direitos do Meio Ambiente na Plataforma DHESCA e alertou sobre os riscos da litigância estratégica contra a participação pública (LEPP). Ela defendeu a criação de uma lei anti-LEPP no Brasil, para impedir a judicialização abusiva contra ativistas.

Já Claudelice Silva Santos, reforçou a necessidade de ampliar os programas de proteção e garantir mecanismos que fortaleçam a autoproteção de defensores e comunidades, de forma dialógica e adaptada às realidades locais.

Integrante da equipe do Programa Defensores dos Defensores, Heloisa Simão, celebrou. “Ficamos contentes com a participação ativa de todos os convidados, foi um  encontro riquíssimo, marcado por falas contundentes e análises aprofundadas sobre os desafios enfrentados pelos defensores e perspectivas de uma proteção mais efetiva a estas pessoas”.

Proteção multidisciplinar e ação coletiva

Segundo Figueiredo, o programa adota uma abordagem multidisciplinar e interseccional, integrando diferentes áreas do conhecimento para garantir proteção efetiva. Durante o evento, especialistas discutiram a importância do acolhimento psicológico, social e comunitário, além da necessidade de fortalecer a articulação entre instituições e movimentos sociais.

A coordenadora do Instituto Zé Claudio e Maria, Claudelice Silva Santos, reforçou a necessidade de auto-organização dos defensores: “Não basta apenas oferecer proteção individual, é essencial garantir a segurança coletiva e fortalecer as redes de defesa que já atuam na linha de frente”, pontuou.

Confira as fotos do lançamento oficial do programa em SP

Lançamento: Programa Defensores em SP

Povos indígenas e quilombolas em luta por seus direitos

O evento também deu destaque à luta dos povos indígenas e quilombolas no estado de São Paulo. O cacique Awatenondegua enfatizou a importância do reconhecimento das tecnologias ancestrais e da resistência indígena. “Os povos indígenas protegem a natureza há séculos, mas continuam sendo ameaçados. Precisamos viabilizar essa luta e garantir direitos territoriais para impedir novas violações”, afirmou.

Ivo Santos Rosa e Oriel Rodrigues de Morais, lideranças quilombolas do Vale do Ribeira, denunciaram ameaças constantes, como a falta de regularização fundiária e os impactos de empreendimentos energéticos e agropecuários em seus territórios. Foram mencionados os assassinatos da Ialorixá Mãe Bernadette do Quilombo Pitanga dos Palmares, na região metropolitana de Salvador, além de Laurindo Gomes, agente comunitário de saúde e expressiva liderança do Quilombo de Praia Grande, em São Paulo, reforçando a urgência da proteção a defensores quilombolas.

Na região do Vale do Ribeira, onde estão localizados os quilombos Sapatu e Ivaporunduva, projetos de hidrelétricas já foram barrados pela mobilização quilombola. No entanto, novas ameaças surgem com outros empreendimentos energéticos, o que mantém a luta das comunidades ativa.

Outro ponto abordado foi a necessidade de uma transição energética justa, levantando o questionamento sobre para quem essa energia é produzida e quem arca com seus impactos. A iniciativa de dar voz aos quilombolas foi elogiada, assim como a participação de organizações que se somam à luta pela proteção dos defensores dos direitos dessas comunidades.

Justiça climática e racismo ambiental

A diretora do Instituto Peregum, Beatriz Lourenço, destacou que a luta pela justiça climática está diretamente ligada ao combate ao racismo ambiental. Segundo ela, “é impossível falar sobre proteção de defensores sem considerar a realidade da população negra e periférica, que sofre os maiores impactos da crise climática”.

O evento reforçou o compromisso do Programa Defensores dos Defensores em atuar de forma estruturada e permanente, expandindo suas atividades para todo o Brasil e América Latina.

A presença de mandatos parlamentares, como da vereadora Keit Lima, e dos deputados Eduardo Suplicy e Guilherme Cortez, evidenciou a relevância do tema no debate político. Organizações como o Instituto Futuro, Instituto de Conservação Costeira, Oxfam e Comissão Pró-Indio também marcaram presença, fortalecendo a articulação entre diferentes setores da sociedade.

Para a diretora da ARAYARA, o evento evidenciou a urgência de ações concretas para garantir a segurança e a continuidade do trabalho dos defensores, ressaltando o papel fundamental da sociedade civil e das instituições na defesa dos direitos humanos e ambientais.

“O lançamento do programa foi marcado por discursos impactantes, trocas de experiências e a reafirmação da necessidade de proteger aqueles que dedicam suas vidas à luta pelo meio ambiente e pelos direitos humanos. Como disse o Cacique Awatenondegua: ‘A esperança virá quando superarmos a doença do homem branco quer ter e passarmos a viver com base no quer viver, o bem viver’”, concluiu Figueiredo.

 

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Categorias
Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Na mídia | Questionamentos judiciais fazem ANEEL adiar homologação do leilão de térmicas a combustíveis fósseis

FIESP e CNI criticam o certame e pedem para acompanhar o processo no TCU; Arayara pede ao tribunal a exclusão de usinas a carvão do processo. Por ClimaInfo 17/05/2026  Continua o imbróglio envolvendo o leilão de reserva de capacidade (LRCAP) de 2026, que contratou usinas a gás fóssil, carvão, óleo combustível e diesel, e só é elogiado pelas empresas que

Leia Mais »

Brazilian Federal Court Sets Historic Climate Precedent in Coal Power Plant Licensing Case

Brazil has just reached a historic milestone in climate and environmental litigation. In an unprecedented ruling, the Federal Court of Rio Grande do Sul determined that climate impacts and greenhouse gas (GHG) emissions must be formally considered as mandatory criteria in the environmental licensing process for a coal-fired power plant. The decision was issued in a public civil action filed

Leia Mais »

Justiça cria precedente histórico ao exigir análise climática para renovação da licença da Usina Candiota III

O Brasil acaba de registrar um marco inédito na Justiça climática e ambiental. Uma decisão da Justiça Federal do Rio Grande do Sul reconheceu, pela primeira vez, que os impactos climáticos e as emissões de gases de efeito estufa (GEE) precisam fazer parte obrigatoriamente da análise para renovação da licença ambiental de uma usina termelétrica a carvão mineral. A decisão

Leia Mais »

Na Mídia | LRCAP 2026: relatório pede suspensão e PF investiga leilão de energia

Documento aponta indícios de cartel, sigilo de cálculos e impacto bilionário na tarifa; especialistas defendem alternativas limpas ao modelo de térmicas fósseis Por: painelpolitico.com Na tarde desta quarta-feira (6), a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados recebeu um relatório explosivo: o deputado federal Danilo Forte (PP-CE) recomenda a suspensão imediata do Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 (LRCAP), a não homologação

Leia Mais »