+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Arayara protesta e projeto de lei que daria subsídios bilionários ao carvão é retirado de pauta na Comissão de Minas e Energia

O Instituto Internacional ARAYARA, o Observatório do Carvão Mineral e a Frente Nacional dos Consumidores de Energia manifestaram-se, em nota, em repúdio ao Projeto de Lei nº 1.371/2025, que prevê a prorrogação, até 2050, da operação de usinas termelétricas a carvão mineral — em especial para manter a compra subsidiada de carvão da Companhia Riograndense de Mineração (CRM), estatal gaúcha que abastece a UTE Candiota III, no Rio Grande do Sul.

A proposta, que estava pautada para votação na Comissão de Minas e Energia (CME) da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira, 15 de outubro de 2025, foi retirada de pauta pelo relator, deputado Ricardo Guidi (PL-SC), que justificou ao presidente da Comissão a necessidade de um debate mais aprofundado sobre o tema.

Representado por sua diretora executiva, Nicole Figueiredo de Oliveira, e pelo time de advocacy, o Instituto Internacional ARAYARA participou da 39ª reunião extraordinária deliberativa da CME, ocasião em que entregou a nota de repúdio ao PL 1.371/2025, bem como o estudo técnico elaborado pela entidade, “UTE Candiota 2050 – O futuro insustentável da produção de energia elétrica a partir do carvão mineral subsidiado.”

De acordo com a ata da reunião, o projeto, de autoria dos deputados Afonso Hamm (PP-RS) e Lucas Redecker (PSDB-RS), e relatado por Ricardo Guidi (PL-SC), “altera a Lei nº 10.848, de 15 de março de 2004, para garantir a transição energética justa com a sobrevivência socioeconômica das zonas carboníferas da Região Sul do Brasil e aumentar a segurança energética do Setor Elétrico Brasileiro (SEB)”. O parecer do relator era favorável à aprovação, mas o projeto foi retirado de pauta, por acordo, a pedido do próprio relator. A deputada Duda Salabert (PDT-MG) apresentou voto em separado, em 8 de outubro de 2025, pela rejeição integral da proposta.

O PL 1.371/2025 prorroga contratos de geração a carvão com recursos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), fundo custeado por todos os consumidores de energia elétrica, o que, segundo estimativas da ARAYARA, imporia um custo adicional superior a R$ 5 bilhões nos próximos 25 anos. O projeto também não prevê medidas de transição justa para os trabalhadores nem diretrizes de diversificação econômica nas regiões carboníferas do Sul do país.

“O Brasil está prestes a sediar a COP30 e, em vez de acelerar a transição energética, vota um projeto que estende o ciclo do combustível fóssil mais sujo do mundo. As enchentes históricas no Rio Grande do Sul mostraram o custo humano e ambiental de um modelo ultrapassado”, afirmou Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico do Instituto Internacional ARAYARA. “Este projeto de lei propõe uma transição energética do carvão mineral para o carvão mineral até 2050. O país precisa de uma transição justa de verdade, com investimentos em energia limpa e qualificação profissional, e não de subsídios para perpetuar o problema”, concluiu.

As organizações ressaltam que o município de Candiota (RS), onde estão localizadas as usinas Candiota III e Pampa Sul, é o maior emissor de gases de efeito estufa do estado. Mesmo sem contrato vigente desde dezembro de 2024, a UTE Candiota III segue exportando energia para a Argentina e recebendo cerca de R$ 13 milhões mensais da CDE, pagos por consumidores de todo o país.

O voto em separado apresentado pela deputada Duda Salabert foi considerado pelas entidades um gesto de coerência com a ciência climática e com os compromissos do Acordo de Paris. Em seu parecer, a parlamentar destacou que a prorrogação de contratos com usinas a carvão é “incompatível com o contexto de emergência climática e com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil”.

O Instituto Internacional ARAYARA, o Observatório do Carvão Mineral e a Frente Nacional dos Consumidores de Energia reiteram o pedido de rejeição integral do PL 1.371/2025, bem como seu arquivamento e a realização de uma audiência pública para discutir uma transição energética justa e sustentável na Região Carbonífera do Rio Grande do Sul. A retirada do projeto de pauta já é considerada pelas entidades uma vitória parcial, que reflete a pressão da sociedade civil organizada contra o retrocesso climático.

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Categorias
Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Arayara participa do novo relatório global do Global Monitor Energy que monitora expansão e declínio do carvão no mundo

O Instituto Internacional ARAYARA é coautor do relatório internacional Ascensão e Queda 2026 (Boom and Bust Coal 2026), produzido pela Global Energy Monitor (GEM) em parceria com organizações da sociedade civil e centros de pesquisa de diferentes países. A publicação acompanha as principais tendências globais da indústria do carvão, incluindo expansão de novas usinas, desativações, subsídios, políticas energéticas e os

Leia Mais »

Na mídia | Questionamentos judiciais fazem ANEEL adiar homologação do leilão de térmicas a combustíveis fósseis

FIESP e CNI criticam o certame e pedem para acompanhar o processo no TCU; Arayara pede ao tribunal a exclusão de usinas a carvão do processo. Por ClimaInfo 17/05/2026  Continua o imbróglio envolvendo o leilão de reserva de capacidade (LRCAP) de 2026, que contratou usinas a gás fóssil, carvão, óleo combustível e diesel, e só é elogiado pelas empresas que

Leia Mais »

Brazilian Federal Court Sets Historic Climate Precedent in Coal Power Plant Licensing Case

Brazil has just reached a historic milestone in climate and environmental litigation. In an unprecedented ruling, the Federal Court of Rio Grande do Sul determined that climate impacts and greenhouse gas (GHG) emissions must be formally considered as mandatory criteria in the environmental licensing process for a coal-fired power plant. The decision was issued in a public civil action filed

Leia Mais »

Justiça cria precedente histórico ao exigir análise climática para renovação da licença da Usina Candiota III

O Brasil acaba de registrar um marco inédito na Justiça climática e ambiental. Uma decisão da Justiça Federal do Rio Grande do Sul reconheceu, pela primeira vez, que os impactos climáticos e as emissões de gases de efeito estufa (GEE) precisam fazer parte obrigatoriamente da análise para renovação da licença ambiental de uma usina termelétrica a carvão mineral. A decisão

Leia Mais »