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Audiovisual como arma: Krenak lança documentário para conquistar terra sagrada

O poder do audiovisual na luta por direitos territoriais foi o tema central do painel realizado na quinta-feira, 20 de novembro, no ARAYARA Amazon Climate Hub. Produtores e lideranças indígenas, incluindo nomes por trás do premiado O Território, reuniram-se para debater como câmeras e filmes estão se tornando ferramentas cruciais para a demarcação de terras, a denúncia de violências e a construção da própria narrativa indígena.

O ponto focal foi o lançamento do teaser do documentário sobre o território Sete Salões, do povo Krenak, uma luta que se arrasta há mais de 20 anos.

Sete Salões: uma luta por água e demarcação

Maicon Krenak, produtor do novo documentário, compartilhou a urgência da luta do seu povo pela demarcação do Sete Salões, um território sagrado em Minas Gerais.

“Lutamos há mais de 20 anos pra tentar demarcar essa terra sagrada,” afirmou.

O filme foi gravado este ano com o objetivo de servir como ferramenta para acelerar o processo, que esteve parado na FUNAI por muito tempo. A necessidade de posse da terra é urgente, pois é “o único lugar que temos acesso à água agora”. A situação piorou drasticamente após o crime de Mariana, que matou o Rio Doce, uma tragédia com a qual o povo Krenak convive desde 2015.

Maicon relatou o histórico de violência e remoções sofridas pelo povo Krenak, desde os bandeirantes até a ditadura, e a alegria de ter visto o processo de Sete Salões avançar para o Ministério da Justiça durante a COP30. O território é um dos únicos locais em Minas Gerais que ainda abriga Mata Atlântica nativa, mas sofre com a depredação e a presença de mineradoras. Ele denunciou, inclusive, a atuação de uma empresa de água na terra que vende o recurso usando o nome Krenak, enquanto o povo de mesmo nome não tem acesso ao recurso.

Da fotografia à direção: o olhar indígena

Gabriel Montelli, advogado e agora produtor do documentário, explicou que a linguagem e forma do projeto nasceu bastante do desejo de Maicon de trabalhar com imagens. A parceria com um diretor de olhar artístico e com a orientação de Maicon garantiu que o filme não reproduza uma “lógica extrativista” na forma de contar a história.

Txai Suruí, produtora de O Território, reforçou o potencial do audiovisual: “o audiovisual serve como forma de tocar as pessoas também, podemos ver e sentir um pouco da força do povo Krenak, desse lugar, dessa resistência de tanto tempo contra tantas violências”. Ela destacou que filmes como Minha Terra Estrangeira reforçam a necessidade de o povo indígena contar a própria história, com suas palavras e seu olhar, combatendo o racismo estrutural que impede seus líderes de ocupar espaços políticos.

Neidinha Suruí Kanindé, protagonista de O Território, compartilhou a experiência de usar a câmera como arma de denúncia. O filme sobre a luta do povo Paetê Suruí contra invasões e grilagem, quando divulgado para o mundo, serviu para que “outros povos no mundo inteiro vissem que eles tinham nos celulares e câmeras a oportunidade de denunciar e divulgar o que acontece em suas terras também”. A divulgação do documentário sobre Sete Salões, segundo ela, unirá todos em sua defesa.

Financiamento e consciência

A luta pela demarcação de quilombos e terras indígenas, reforçada no Dia da Consciência Negra, que ocorreu durante a COP, foi mencionada por Neidinha como essencial, mas carente de apoio.

“A gente precisa de mais apoio para filmes que são produção de povos indígenas, quilombolas, extrativistas. Precisamos de financiamento para isso.”

Thainá Mamede (Fundo Brasil) explicou que sua organização atuou na bacia do Rio Doce para apoiar as comunidades afetadas, e foi através de um edital que a associação Krenak conseguiu produzir o documentário e um livro. Ela ressaltou a importância da comunicação para que o público entenda que a luta é cultural: “não podemos deixar que o povo Krenak perca mais isso”.

O painel concluiu que, ao investir em produções culturais lideradas pelos povos da floresta, as organizações e o governo contribuem para a demarcação de terras, a proteção da cultura e a criação de uma consciência global contra a destruição da Amazônia.

Foto: Odaraê Filmes

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