O Instituto Internacional ARAYARA é coautor do relatório internacional Ascensão e Queda 2026 (Boom and Bust Coal 2026), produzido pela Global Energy Monitor (GEM) em parceria com organizações da sociedade civil e centros de pesquisa de diferentes países. A publicação acompanha as principais tendências globais da indústria do carvão, incluindo expansão de novas usinas, desativações, subsídios, políticas energéticas e os impactos da permanência dos combustíveis fósseis no cenário climático internacional.
O relatório demonstra que, embora a geração global de eletricidade a carvão tenha diminuído em 2025, a capacidade instalada continuou crescendo. A expansão foi impulsionada principalmente pela China e pela Índia, que registraram altos índices de construção e propostas de novas usinas, mesmo diante do crescimento acelerado das energias renováveis. Globalmente, a capacidade de carvão aumentou 3,5%, enquanto a geração caiu 0,6%, evidenciando uma crescente desconexão entre a expansão das usinas e a efetiva necessidade de geração elétrica a partir do carvão.
O estudo aponta ainda que o número de países propondo ou construindo novas usinas a carvão caiu de 38 para 32 em apenas um ano, consolidando uma tendência de retração geográfica da expansão carbonífera. Apesar disso, o relatório alerta que diversos governos continuam prorrogando contratos, ampliando subsídios e retardando cronogramas de desativação, sustentando artificialmente a indústria do carvão mesmo diante da competitividade crescente das energias renováveis.
América Latina alcança marco histórico, mas enfrenta retrocessos
A publicação destaca que a América Latina e o Caribe atingiram, em 2025, o status de “Sem Novas Usinas a Carvão”, após o arquivamento definitivo da Nova Seival, no Brasil. O relatório ressalta que já faz mais de uma década desde o início da construção do último novo projeto carbonífero da região, consolidando uma mudança regional em direção ao abandono de novas usinas a carvão.
No entanto, o documento alerta para importantes retrocessos na região. Mais de 7 GW de usinas a carvão ainda devem operar além de 2040 ou sequer possuem cronogramas claros de desativação. Brasil, Chile e República Dominicana aparecem entre os países que adiaram datas de fechamento de termelétricas ou ampliaram mecanismos de suporte ao carvão.
Brasil amplia subsídios e prolonga vida útil de termelétricas
O capítulo dedicado ao Brasil evidencia fortes contradições entre o discurso climático do país e as decisões recentes relacionadas ao setor carbonífero. Embora o governo tenha celebrado o encerramento definitivo do projeto Nova Seival e o status regional de “Sem Novas Usinas a Carvão”, medidas posteriores ampliaram contratos e incentivos para termelétricas já existentes.
Entre os principais retrocessos apontados pelo relatório estão:
- a extensão da operação de usinas como Candiota 3 e Jorge Lacerda até 2040;
- novos contratos firmados para usinas como Pecém I, Pecém II e Itaqui;
- a ampliação de subsídios ao carvão que podem ultrapassar R$ 100 bilhões até 2040;
- a inclusão de termelétricas a carvão em novos leilões de energia realizados em 2026.
O relatório destaca que esses custos continuam sendo repassados à população por meio das tarifas de energia elétrica, prolongando artificialmente a competitividade de uma fonte altamente poluente e cada vez menos alinhada às metas climáticas internacionais.
Candiota: símbolo dos impactos sociais, ambientais e econômicos do carvão
O complexo carbonífero de Candiota, no Rio Grande do Sul, aparece como um dos principais exemplos dos impactos estruturais da indústria do carvão no Brasil. Segundo o relatório, estudos recentes desenvolvidos pela ARAYARA e pela CREA apontam que as atividades ligadas ao complexo podem causar até 1.300 mortes e gerar custos de saúde pública estimados em R$ 11,7 bilhões até 2040.
A publicação também destaca o acúmulo de mais de R$ 125 milhões em multas ambientais não pagas pela usina Candiota 3, além da permanência de graves passivos ambientais relacionados à mineração de carvão na região Sul do país. O documento alerta que os impactos da indústria carbonífera extrapolam fronteiras locais, podendo atingir inclusive países vizinhos como Argentina, Uruguai e Paraguai.
Além dos danos ambientais e sanitários, o relatório enfatiza a ausência de políticas robustas de transição justa para trabalhadores e territórios dependentes da cadeia do carvão, apontando fragilidades em programas de requalificação profissional, remediação ambiental e diversificação econômica regional.
Transição energética justa
O estudo reforça que o principal desafio para a eliminação gradual do carvão não é tecnológico, mas político e econômico. Mesmo diante do crescimento acelerado da energia solar e eólica, muitos países continuam tratando o carvão como uma fonte estratégica, mantendo mecanismos de incentivo que dificultam a transição energética.
Para os autores, avançar rumo a uma transição energética justa exige a eliminação progressiva dos subsídios fósseis, definição de cronogramas claros de desativação, fortalecimento das energias renováveis, financiamento climático e políticas de proteção social para trabalhadores e comunidades impactadas.
Todas as informações foram retiradas do Relatório “Ascensão e Queda 2026” que pode ser acessado em: https://drive.google.com/file/d/1BBFLKyajv1a3OtQca5e6pWgXLkz1NSCy/view











