+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Artigo de Opinião : Mais uma Medida Provisória que ameaça a sustentabilidade do setor elétrico brasileiro

Na última sexta-feira (11), o governo editou a Medida Provisória nº 1.304/2025, reacendendo o debate sobre a sustentabilidade econômica e ambiental dos subsídios no setor elétrico. Embora apresentada como uma tentativa de conter custos e estabilizar o setor, a MP levanta mais dúvidas do que soluções e pode, na prática, aumentar a insegurança regulatória, encarecer a energia e perpetuar modelos insustentáveis.

A MP propõe três grandes eixos de ação. O primeiro busca fortalecer a política de comercialização do gás natural, permitindo à Empresa Brasileira de Administração de Petróleo e Gás Natural S.A. – Pré-Sal Petróleo S.A (PPSA) ofertar gás a preços mais competitivos para setores estratégicos como a indústria química, de fertilizantes e siderurgia. O segundo tenta mitigar os impactos econômicos da derrubada de vetos da Lei nº 15.097 de 10/01/2025 (que disciplina o aproveitamento de potencial energético offshore no Brasil) ao propor alternativas para limitar aumentos tarifários e trazer mais estabilidade. E o terceiro introduz limites ao crescimento da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), revoga a obrigatoriedade de contratação de termelétricas e cria novas diretrizes para o mercado de gás.

No papel, os objetivos parecem nobres: reduzir custos para o consumidor, modernizar o setor e evitar impactos fiscais ao orçamento público. No entanto, ao olhar mais de perto, percebe-se um conjunto de medidas desconectadas entre si, com potencial de aprofundar problemas já existentes.

A inserção do mercado de gás na MP revela uma insistência na exploração de combustíveis fósseis, mesmo que direcionada majoritariamente à indústria. Essa opção contraria a necessidade de acelerar a transição energética e reduzir a dependência de fontes poluentes. Além disso, a ênfase em pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) ignora a crescente instabilidade hídrica causada pelas mudanças climáticas e os impactos ambientais dessas usinas, mesmo de pequeno porte, durante períodos de estiagem.

Outro ponto preocupante é a definição do teto para a CDE. O limite proposto parece se basear apenas no cenário de 2025, sem considerar as necessidades futuras nem oferecer mecanismos claros para evitar que os custos sejam, de qualquer forma, repassados ao consumidor. Da mesma forma, a criação do chamado “encargo de complemento de recursos” carece de transparência: os encargos serão pagos por geradores e consumidores sem uma política pública bem definida a que estejam vinculados, desvirtuando a lógica dos encargos setoriais e impondo novos custos sem justificativa robusta.

Há ainda um problema institucional importante: medidas de tamanha complexidade deveriam ser discutidas amplamente no Congresso, com participação social e análise técnica detalhada. A edição de uma Medida Provisória, com vigência imediata e espaço reduzido para debate, ameaça a transparência legislativa e abre margem para distorções.

Em resumo, a MP nº 1.304/2025 tenta vender a ideia de que reduzirá custos e trará estabilidade ao setor, mas seu conteúdo contraditório indica justamente o contrário: riscos maiores de custos para o consumidor, insegurança regulatória, distorções de mercado e compromissos frágeis com a sustentabilidade. O setor elétrico brasileiro precisa de reformas, sim — mas elas devem ser planejadas com visão de longo prazo, responsabilidade ambiental e foco no consumidor, e não como remendos apressados que perpetuam velhos problemas de lobby no setor elétrico brasileiro favorecendo especialmente a expansão da indústria fóssil, não levando em consideração a situação de emergência climática, especialmente no ano de realização no Brasil da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, também chamada de COP30. 

Por:

John Wurdig – Gerente de Transição Energética do Instituto Internacional ARAYARA, mestre e engenheiro ambiental

Hirdan Costa – Colaboradora, especialista em energia do Instituto Internacional ARAYARA, advogada, economista e pós-doutora em energia.

 

Foto: reprodução/ Creative Commons

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Categorias
Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

A proteção do Oceano é destaque em agenda no Peru

Nos dias 24 e 25 de janeiro, o Instituto Arayara participou, em Lima (Peru), da Consulta Regional sobre Capacidades Legais para a Proteção do Oceano, promovida pela Asociación Interamericana para la Defensa del Ambiente (AIDA). O encontro reuniu especialistas em temas marinhos de toda a região da América do Sul, em uma oficina de discussão e diálogo, com o objetivo

Leia Mais »

Na Mídia | Flexibilização do licenciamento ambiental entra em vigor nesta quarta com ações no STF alegando inconstitucionalidade

Derrubada de 56 vetos de Lula pelo Congresso restituiu ao texto dispositivos que ampliam modalidades simplificadas, reduzem a participação de órgãos setoriais e restringem exigências previstas em normas anteriores Por Luis Felipe Azevedo — Rio de Janeiro – O Globo   A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que flexibiliza o processo de concessão de licenças, entrou em vigor nesta quarta-feira, 180

Leia Mais »

Na mídia | Fracking: STJ pode avaliar uso de técnica controversa e redefinir exploração de gás neste semestre

Processo que discute viabilidade jurídica e condições técnicas para o fraturamento hidráulico foi instaurado pelo tribunal após 11 anos de impasse; tema mobiliza mais de 500 municípios brasileiros Por: Gabriela da Cunha –  Estadão.com Com a volta do ano judiciário, em fevereiro, o STJ pode levar a julgamento, ainda neste semestre, a ação sobre o uso do fracking no País.

Leia Mais »

Na mídia | Mapa do caminho: sociedade civil propõe diretrizes para que plano de transição energética vá além da retórica

Por Luciana Casemiro – O Globo (28/01/2026) Termina na próxima sexta-feira o prazo dado pelo presidente Lula para que sejam estabelecidas as diretrizes para o plano transição energética no Brasil. O chamado mapa do caminho para o fim da dependência dos combustíveis fósseis foi uma proposta apresentada pelo governo brasileiro durante a COP, realizada em Belém, em novembro do ano

Leia Mais »