+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

ARAYARA na Mídia: Macaé, a cidade que ficou milionária com o ouro negro e agora luta contra a desigualdade e os fantasmas deixados pelo petróleo

A antiga “capital do pré-sal” vive o dilema entre a riqueza que o petróleo trouxe e as crises sociais, ambientais e econômicas que o setor deixou

Durante décadas, Macaé, no litoral norte do Rio de Janeiro, simbolizou a prosperidade da indústria de petróleo no Brasil. Conhecida como “capital nacional do pré-sal” e também “capital das usinas termelétricas”, a cidade cresceu rapidamente. Segundo o IBGE, sua população aumentou de 65 mil habitantes em 1970 para 246 mil em 2022, impulsionada por empregos, investimentos e pela chegada de trabalhadores de todo o país.

Entretanto, mesmo com R$ 1,4 bilhão arrecadados em royalties em 2022, conforme a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN), a prosperidade não se distribuiu igualmente. Em 2021, Macaé registrava uma das maiores médias salariais do Brasil, com 5,8 salários mínimos, mas a desigualdade persistia. Enquanto engenheiros e executivos recebiam altos salários, milhares de famílias viviam com menos de meio salário mínimo per capita. Além disso, muitos moradores enfrentavam falta de saneamento, moradias precárias e dificuldades em serviços básicos.

A queda do barril e a crise que abalou a capital do petróleo

Logo após o auge, o setor entrou em colapso. Entre 2014 e 2019, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mais de 60 mil trabalhadores perderam o emprego. A crise foi agravada pela Operação Lava Jato, que paralisou obras e contratos da Petrobras. Como resultado, casas foram abandonadas, escolas ficaram vazias e restaurantes fecharam. A cidade, que já teve o segundo maior polo hoteleiro do estado, viu hotéis encerrarem atividades.

Com o preço do barril em queda e a desaceleração da produção, a economia desabou. Assim, o ciclo de prosperidade deu lugar à desigualdade e ao desemprego. De acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), entre 2010 e 2019, a receita da participação especial caiu mais de 95%. Em 2020, pela primeira vez, Macaé não recebeu essa compensação. Como consequência, serviços públicos enfraqueceram, e a distância entre ricos e pobres aumentou.

O meio ambiente perdeu espaço e o turismo desapareceu

Enquanto a economia enfrentava crises, o meio ambiente também foi atingido. A Praia de Imbetiba, antes frequentada por famílias e pescadores, foi tomada pelas obras da Petrobras e pela expansão portuária. Assim, o óleo nas areias e o mar poluído afastaram turistas, ampliando a dependência da cidade em relação ao setor de petróleo.

Com o turismo em queda e a economia fragilizada, Macaé passou a viver um paradoxo. De um lado, condomínios de luxo e torres empresariais surgiram. De outro, bairros inteiros ficaram sem infraestrutura básica. Dessa forma, a cidade que cresceu graças ao ouro negro agora enfrenta o preço da dependência econômica e ambiental.

Novas apostas fósseis reforçam a dependência do setor

Mesmo com tantas crises, o investimento em combustíveis fósseis segue forte. De acordo com o relatório “The Money Trail Behind Fossil Fuel Expansion in Latin America and the Caribbean”, elaborado pelo Instituto Internacional ARAYARA e pela Urgewald, quatro novos campos exploratórios estão sendo abertos nas áreas do pré-sal próximas a Macaé: Marlim Azul (Petrobras), Raia Pintada e Raia Manta (Equinor) e Maromba (BW).

Além disso, os dois maiores terminais de GNL da América Latina estão sendo construídos no Brasil. O Porto Norte Fluminense e o Tepor Macaé terão capacidade de regaseificação de 5,63 milhões de toneladas por ano. O primeiro, avaliado em US$ 1,4 bilhão, deve abastecer duas termelétricas de 1,7 GW em São Francisco de Itabapoana. Já o Tepor Macaé, desenvolvido pela Eneva e pelo Grupo Vale Azul Participações, foi projetado para alimentar um complexo de grandes usinas termoelétricas ainda em construção.

Por fim, o 3º Leilão da Oferta Permanente de Partilha (OPP), realizado em 2025, deve ofertar sete novos campos de exploração no polígono do pré-sal. Quatro deles estão localizados na Bacia de Campos, próximos a Macaé, representando 55% das áreas ofertadas. Esse movimento reforça o modelo fóssil que ainda domina a matriz energética brasileira.

A transição energética que ainda não chegou

O caso de Macaé mostra claramente que a dependência do petróleo cria ciclos de riqueza e crise. Mesmo com bilhões em royalties, a cidade não conseguiu se proteger das oscilações do mercado global. O modelo extrativista trouxe crescimento rápido, mas também aprofundou desigualdades e destruiu ecossistemas.

Por outro lado, especialistas afirmam que o verdadeiro progresso não está no barril de petróleo, mas na capacidade de o país planejar uma transição energética justa e sustentável. Essa mudança exige diversificação econômica, geração de empregos dignos e respeito ao meio ambiente. Assim, o Brasil poderia reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis e investir em energias renováveis seguras e acessíveis, capazes de garantir estabilidade e justiça social.

A história de Macaé é um alerta nacional. Sem planejamento e sem mudanças estruturais, a capital do petróleo continuará presa a um modelo que concentra riqueza e perpetua desigualdade.

O que você acha: o Brasil deve seguir apostando no petróleo para sustentar a economia ou acelerar a transição para fontes limpas, construindo um futuro mais justo e sustentável?

Foto: reprodução/ Click Petróleo

Fonte: Click Petróleo 

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Categorias
Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Na mídia | Fracking: STJ pode avaliar uso de técnica controversa e redefinir exploração de gás neste semestre

Processo que discute viabilidade jurídica e condições técnicas para o fraturamento hidráulico foi instaurado pelo tribunal após 11 anos de impasse; tema mobiliza mais de 500 municípios brasileiros Por: Gabriela da Cunha –  Estadão.com Com a volta do ano judiciário, em fevereiro, o STJ pode levar a julgamento, ainda neste semestre, a ação sobre o uso do fracking no País.

Leia Mais »

Na mídia | Mapa do caminho: sociedade civil propõe diretrizes para que plano de transição energética vá além da retórica

Por Luciana Casemiro – O Globo (28/01/2026) Termina na próxima sexta-feira o prazo dado pelo presidente Lula para que sejam estabelecidas as diretrizes para o plano transição energética no Brasil. O chamado mapa do caminho para o fim da dependência dos combustíveis fósseis foi uma proposta apresentada pelo governo brasileiro durante a COP, realizada em Belém, em novembro do ano

Leia Mais »

NA MÍDIA | Projeto da maior usina termelétrica do país é vetado pelo Ibama por falta de informações conclusivas

Usina Termelétrica São Paulo seria construída em Caçapava e era alvo de protestos de ambientalistas; Fiocruz apontava ameaças à saúde   Por Lucas Altino — Rio de Janeiro – O GLOBO   O projeto do que seria a maior usina termelétrica do país e da América latina, em Caçapava (SP), foi vetado pelo Ibama. Nesta quarta (21), o Instituto indeferiu

Leia Mais »

Instituto Internacional ARAYARA integra litigância climática no STF contra retrocesso histórico da Lei de Licenciamento Ambiental

O Instituto Internacional ARAYARA ocupa papel de protagonismo na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) protocolada no Supremo Tribunal Federal (STF) contra dispositivos centrais da Lei nº 15.190/2025, conhecida como Lei Geral do Licenciamento Ambiental, e da Lei nº 15.300/2025, que institui o chamado Licenciamento Ambiental Especial. A ação foi proposta pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e pela Articulação dos

Leia Mais »