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ARAYARA na Mídia: Quatro termelétricas a gás e um mega-gasoduto colocam o Cerrado em risco crítico

Instalação de usinas pode acelerar a destruição de um dos biomas mais ameaçados do Brasil

No Dia Nacional do Cerrado, celebrado em 11 de setembro, acendem-se os alertas para um grave ameaça: a instalação de quatro usinas termelétricas a gás e de um gasoduto com mais de 900 km, em Goiás e no Distrito Federal, que podem acelerar a destruição de um dos biomas mais ameaçados do Brasil.

O Cerrado, reconhecido como a “savana mais rica do mundo”, abriga cerca de 27% de sua vegetação nativa perdida entre 1985 e 2023, o que representa 38 milhões de hectares suprimidos, segundo o MapBiomas. A região também concentra nascentes vitais para grandes bacias hidrográficas e é um hotspot global de biodiversidade – embora menos de 3% de sua área esteja protegida por unidades de conservação de proteção integral.

No dia que marca sua valorização nacional, a indústria de combustíveis fósseis avança: quatro usinas termelétricas a gás planejam sua instalação em Goiás e no Distrito Federal, apoiadas por um gasoduto de mais de 900 km, o Gasoduto Brasil-Central (TGBC), que
interligaria São Carlos (SP) a Brasília (DF) para abastecer os empreendimentos.

As usinas previstas incluem:

  • UTE Brasília (Termo Norte Energia): 1.470 MW, localizada em Samambaia (DF), a apenas 35 km da Esplanada dos Ministérios;
  • UTE Bonfinópolis (Termo Norte Energia): originalmente com 1.476 MW, reduzidos para 299 MW, cujo licenciamento foi transferido à SEMAD-GO em setembro de 2023; UTE Centro-Oeste (1.250 MW)
  • UTE Brasil Central (1.250 MW), ambas sob responsabilidade da Eletricidade do Brasil S.A. (Ebrasil), localizadas em Bonfinópolis e Abadiânia (GO).
Mapa de instalação das quatro usinas termelétricas a gás em Goiás e no DF | Reprodução/Arayara

 

O somatório de intervenções cobre mais de 2.000 hectares, equivalente a cerca de 2 mil campos de futebol. O processo de licenciamento do Gasoduto Brasil Central da TGBC tramita no Ibama desde 2019, com a licença de instalação do gasoduto emitida em 2013, mas o último despacho, em dezembro de 2024, apontou pelo arquivamento do processo na superintendência do Mato Grosso. Ainda em fase prévia, os EIAs desses projetos têm recebido críticas por falhas nas análises de uso hídrico, especialmente considerando o cenário de escassez de água na região.

Instituto Internacional Arayara solicitou urgentemente ao Ibama, em março de 2025, que exigisse estudos cumulativos e sinérgicos dos impactos das quatro usinas, levando em conta suas emissões combinadas — estimadas em mais de 12,5 milhões de toneladas de
CO₂e por ano — e seus efeitos regionais integrados. Até o momento, não houve resposta ao pedido.

Paralelamente, o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026, cuja consulta pública se encerra nesta sexta-feira (12/09/2025), intensifica os riscos. O edital prevê contratação de geração térmica a gás natural, carvão e hidráulica com o objetivo de garantir capacidade.

Em maio de 2025, o boletim energético da Arayara indicou que 67% dos projetos cadastrados (228 em número) são usinas termelétricas a gás, totalizando 61,6 GW de potência — o que evidencia a escalada do modelo fóssil no país.

No caso da UTE Brasília, liminares suspendem as outorgas de uso de água e efluentes, em razão de inconsistências – conforme ação civil pública movida pelo próprio Instituto Arayara — e tramitações que apontam riscos ambientais graves ao processo educacional: uma escola vizinha à usina, a Escola Classe Guariroba, poderá ser inviabilizada já na fase de construção, caso o projeto avance no leilão. Essa situação foi denunciada pelo Instituto dentro do processo de licenciamento do empreendimento.

O risco não é apenas ambiental, mas institucional: originalmente, a privatização da Eletrobras em 2021 incluiu, como “jabuti” legislativo, a previsão de contratação de 2.500 MW de geração térmica a gás no Centro-Oeste, com 70% de dependência deste combustível, para entrega de 1.000 MW em 2026, 2.000 MW em 2027 e 3.000 MW em 2028, por até 15 anos, ao preço tabelado do Leilão A-6 de 2019. Esse dispositivo abriu caminho para projetos em áreas sem infraestrutura de gás natural, como Brasília e Goiânia, sinalizando uma mudança estrutural no modelo energético brasileiro.

No Dia Nacional do Cerrado, os impactos ficam claros: além da perda histórica de vegetação, novos empreendimentos fósseis ameaçam acelerar a degradação do bioma, impactar recursos hídricos, comunidades e o futuro energético do país.

É fundamental que o Ibama avalie os riscos de forma integrada e que a sociedade acompanhe os desdobramentos do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026 que será aberto em breve pelo Ministério de Minas e Energia.

*Nicole Figueiredo de Oliveira é diretora executiva da Arayara.

**Juliano Bueno de Araújo é diretor-presidente da Arayara.

**John Fernando de Farias Wurdig é gerente de Transição Energética da Arayara.

****Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato DF.

Foto: reprodução/ Brasil de Fato/ TBGC

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