+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Vacinação privada aprofundaria negacionismo, alerta historiador

“Teríamos concentração ainda maior do número das mortes na população trabalhadora periférica”, afirma pesquisador brasileiro que acompanha o avanço da COVID-19 no mundo

Após 10 meses de acompanhamento diário da evolução da COVID-19 no Brasil e no mundo, o professor Gilberto Calil, da cadeira de História Contemporânea na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), conseguiu chegar a um ponto que lhe possibilita fazer análises complexas das políticas públicas aplicadas ao enfrentamento à pandemia e, também, à forma como as sociedades reagem.

Sobre a vacinação paga – proposta pela Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas, que planeja importar da Índia 5 milhões de doses -, Calil é assertivo:

“A imposição de uma lógica concorrencial, mercadológica, significa não apenas o individualismo e a competição, mas a quebra de qualquer possibilidade de um planejamento, em âmbito mundial, inclusive”, diz, observando que a capacidade global de produção de vacinas no curto prazo é insuficiente inclusive para atender somente a profissionais de saúde, idosos e portadores de comorbidades crônicas. Mas, segundo ele, o efeito da imunização pelo sistema privado de saúde levaria a outros problemas- talvez ainda mais graves.

A vacinação (privada) de parcelas mais enriquecidas da população as levaria a radicalizar o seu negacionismo”. “Vamos ter uma concentração ainda maior do número das mortes , de adoecimentos e sequelas na população trabalhadora periférica. A vacinação privada é um absurdo do ponto de vista epidemiológico, mas há um efeito ainda mais pernicioso do ponto de vista político. Isso significa que uma parcela da população vai se sentir equivocadamente protegida e vai agir de acordo com isso”, afirma o professor da Unioeste, que em seu monitoramento voluntário chegou a produzir mais de 800 tabelas com números da COVID-19.

Ao longo da realização de seu monitoramento, realizado por ele apenas, em sua própria casa, Calil acompanhou a política de disponibilização de informações que deveriam ser públicas, por parte do Ministério da Saúde.

“Desde o mês de março, o tratamento do governo Bolsonaro é marcado pela guerra de informações. O governo Bolsonaro tem no agravamento e manutenção da pandemia o eixo de sua estratégia de facistização. Isso fica absolutamente explícito no trágico discurso de 24 de março da “gripezinha”, “histórico de atleta” etc. Aquele foi o momento de uma gigantesca proliferação de fake news nas redes sociais, sobretudo o WhatsApp e isso se mantém por toda a pandemia”, recorda.

Em paralelo, segundo o professor, “a dificuldade de encontrar informações pública tem como contraface a circulação de falsas informações na forma de fake news, e são elas que demarcam o fundamental da percepção que a população tem sobre a pandemia”.

Essa situação, segundo Calil, “se agrava muito com a militarização do Ministério da Saúde, quando sai do ar o site (do Ministério), quando uma série de informações do histórico da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) desaparece. Há informações de vários profissionais, como alguns da Fiocruz, por exemplo, que projetam que o número total de óbitos seja próximo a 50% a mais do que o registrado”.

A entrevista completa do professor Gilberto Calil está aqui :

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

NA MÍDIA | Projeto da maior usina termelétrica do país é vetado pelo Ibama por falta de informações conclusivas

Usina Termelétrica São Paulo seria construída em Caçapava e era alvo de protestos de ambientalistas; Fiocruz apontava ameaças à saúde   Por Lucas Altino — Rio de Janeiro – O GLOBO   O projeto do que seria a maior usina termelétrica do país e da América latina, em Caçapava (SP), foi vetado pelo Ibama. Nesta quarta (21), o Instituto indeferiu

Leia Mais »

Instituto Internacional ARAYARA integra litigância climática no STF contra retrocesso histórico da Lei de Licenciamento Ambiental

O Instituto Internacional ARAYARA ocupa papel de protagonismo na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) protocolada no Supremo Tribunal Federal (STF) contra dispositivos centrais da Lei nº 15.190/2025, conhecida como Lei Geral do Licenciamento Ambiental, e da Lei nº 15.300/2025, que institui o chamado Licenciamento Ambiental Especial. A ação foi proposta pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e pela Articulação dos

Leia Mais »

Na defesa das usinas nucleares falta argumento, sobra mediocridade

Heitor Scalambrini Costa Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco Zoraide Vilasboas Ativista socioambiental, integrante da Articulação Antinuclear Brasileira   Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3 e constrói mais 10.000 MW de novas usinas nucleares, como propõe o Plano Nacional de Energia 2050, a mediocridade dos argumentos pró

Leia Mais »

Aviso de Convocação – Assembleia Geral Ordinária

O Instituto Internacional ARAYARA convoca os(as) associados(as) com filiação regular e quites com as taxas anuais e remidas, e que estejam em pleno gozo de seus direitos estatutários, para a Assembleia Geral Ordinária a ser realizada em formato híbrido no dia 18 de dezembro de 2025, às 18h30 em primeira chamada e às 19h00 em segunda chamada. A participação poderá

Leia Mais »