+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Incêndios florestais mudam o canto de pássaros, mostra estudo

Pesquisa realizada na Califórnia mostrou que as transformações na floresta interferem na forma como os pássaros desenvolvem os sons

No mundo dos pássaros, os cantos são a forma de conquistar uma parceira ou de espantar um rival. Seja na guerra ou no amor, os sons transmitem importantes mensagens para a sobrevivência de uma espécie. Na Califórnia, nos Estados Unidos, um grupo de pesquisadores do Departamento de Pesca e Vida Selvagem gravou os cantos da espécie conhecida como mariquita-eremita (ou Setophaga occidentalis, o nome científico) e criou o primeiro conjunto de descrição e mapeamento dos sons. Cada indivíduo aprende o canto da espécie por imitação, o que pode fazer com que grupos distintos tenham variações culturais — como expressões e sotaques em português de diferentes regiões do Brasil. As canções foram divididas em 35 dialetos. Em 2019, os cientistas voltaram a dez áreas que haviam sido estudadas e analisaram os impactos causados por incêndios florestais.

Enquanto no Brasil as queimadas remetem à prática de crimes ambientais na Amazônia, na Califórnia o fogo faz parte do ciclo do ecossistema. Ele é um mecanismo natural para a renovação das florestas. Por isso, a mudança que ocorreu no canto não representa, necessariamente, algo ruim. Contudo, com a interferência de mudanças climáticas e da ocupação humana, incêndios de grandes proporções, como a temporada de 2018 na Califórnia, a mais destrutiva da história, geram impactos negativos. De acordo com a bióloga do Observatório de Aves da Mantiqueira (OAMa), Luiza Figueira, a urbanização interferiu no ciclo natural do habitat. “O fogo foi suprimido durante anos e isso gerou um acúmulo de combustível, a matéria orgânica. Durante uma temporada muito seca, com tempestades mais fortes e incidência de raios, não há como evitar o incêndio e a proporção é muito maior”, explicou.

Com dados coletados desde 2009, os pesquisadores perceberam que a diversidade de sons aumentava em áreas que haviam sido atingidas pelos incêndios florestais. Os resultados mostraram que três fatores impactaram nas canções: as queimadas, o efeito em massa de dispersão de pássaros, que abre espaço para indivíduos de outros grupos inserirem seus dialetos, e o intervalo de tempo. “A espécie é migratória. O fogo causa uma ruptura com a saída dos pássaros que não conseguem mais viver no local que foi destruído. Depois de alguns anos, eles podem voltar e existe um dialeto diferente”, explicou Luiza. Para a bióloga, a característica da ave é outro ponto que se diferencia da Amazônia. “Não existe queimada natural na Amazônia. Como as espécies não estão acostumadas com a dinâmica do fogo, o impacto pode ser maior. Além disso, elas não são migratórias. Quando a queimada acontece, ela destrói a ‘casa’ definitiva dos indivíduos”, explicou.

Segundo os pesquisadores, a mariquita-eremita parece ser especialmente sensível ao fogo durante períodos de tempo mais curtos. No primeiro momento, o pássaro é impactado negativamente após os incêndios, mas reage positivamente no longo prazo, pois a floresta se reestrutura e há aumento na população de insetos. No caso da mariquita-eremita, o canto para a reprodução segue uma fórmula simples. Quando se trata de defender o território, os sons se tornam mais complexos, como se fosse literalmente uma disputa para ver quem sairá vencedor. Normalmente, uma única canção é dominante dentro de um determinado território.

De acordo com o autor principal do estudo, Brett Furnas, a pesquisa sugeriu que os dialetos aumentaram em populações em diferentes tipos de florestas. “No longo prazo, o fogo causou a fuga de alguns pássaros e criou um vácuo sonoro para ser preenchido por outras aves. O resultado foi que algumas áreas têm pássaros cantando mais de um dialeto, resultando em uma complexa diversidade de sons na Califórnia”, afirmou. Entre 2009 e 2014, os cientistas gravaram 1.588 machos ao longo de 101 áreas de estudo.

Fonte: Veja | Foto: Mariquita-eremita Frode Jacobsen/Flickr

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Na Mídia | Flexibilização do licenciamento ambiental entra em vigor nesta quarta com ações no STF alegando inconstitucionalidade

Derrubada de 56 vetos de Lula pelo Congresso restituiu ao texto dispositivos que ampliam modalidades simplificadas, reduzem a participação de órgãos setoriais e restringem exigências previstas em normas anteriores Por Luis Felipe Azevedo — Rio de Janeiro – O Globo   A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que flexibiliza o processo de concessão de licenças, entrou em vigor nesta quarta-feira, 180

Leia Mais »

Na mídia | Fracking: STJ pode avaliar uso de técnica controversa e redefinir exploração de gás neste semestre

Processo que discute viabilidade jurídica e condições técnicas para o fraturamento hidráulico foi instaurado pelo tribunal após 11 anos de impasse; tema mobiliza mais de 500 municípios brasileiros Por: Gabriela da Cunha –  Estadão.com Com a volta do ano judiciário, em fevereiro, o STJ pode levar a julgamento, ainda neste semestre, a ação sobre o uso do fracking no País.

Leia Mais »

Na mídia | Mapa do caminho: sociedade civil propõe diretrizes para que plano de transição energética vá além da retórica

Por Luciana Casemiro – O Globo (28/01/2026) Termina na próxima sexta-feira o prazo dado pelo presidente Lula para que sejam estabelecidas as diretrizes para o plano transição energética no Brasil. O chamado mapa do caminho para o fim da dependência dos combustíveis fósseis foi uma proposta apresentada pelo governo brasileiro durante a COP, realizada em Belém, em novembro do ano

Leia Mais »

NA MÍDIA | Projeto da maior usina termelétrica do país é vetado pelo Ibama por falta de informações conclusivas

Usina Termelétrica São Paulo seria construída em Caçapava e era alvo de protestos de ambientalistas; Fiocruz apontava ameaças à saúde   Por Lucas Altino — Rio de Janeiro – O GLOBO   O projeto do que seria a maior usina termelétrica do país e da América latina, em Caçapava (SP), foi vetado pelo Ibama. Nesta quarta (21), o Instituto indeferiu

Leia Mais »