Chamem lá do que quiserem – de ficção científica ou de teoria da conspiração, mas o fato é real e concreto. Todos os grandes big techs – Ali Baba, Facebook, Google, Microsoft, entre outros – estão rapidamente se aliando às fintechs¸ empresas financeiras com forte presença no mundo digital, e a conglomerados agrícolas como Bayer, Basf e Monsanto para induzir um tipo de produção e comercialização de alimentos que pode terminar na homogeneização do consumo global de comida.

“As empresas do agronegócio, sobretudo aquelas que vendem sementes, pesticidas e fertilizantes, têm uma vantagem com relação às Big Techs. Todos os grandes atores do setor têm aplicativos, já com uma cobertura de milhões de hectares de fazendas, que induzem agricultores e agricultoras a fornecer dados em troca de recomendações e descontos na aplicação de seus produtos. A Bayer, maior empresa de agrotóxicos e sementes do mundo, afirma que seu aplicativo já está sendo utilizado por fazendas com uma cobertura de mais de 24 milhões de hectares nos Estados Unidos, no Canadá, no Brasil, na Europa e na Argentina”.

Esse alerta está no relatório Controle digital: a entrada das Big Techs na produção de alimentos e na agricultura (e o que isso significa) – está sendo divulgado internacionalmente  desde o final de janeiro passado pela Grain, uma organização da sociedade civil com sede na Espanha que tem dado sucessivos alertas sobre a homogeneização da cadeia produtiva de alimentos em nível global.

“É a estratégia chamada de from farm to fork – da fazenda ao garfo”, esclarece a advogada brasileira Larissa Parker, pesquisadora da Grain sediada no Rio de Janeiro. “Aí também entram as moedas digitais. Tem-se uma relação dialética de pesquisar e induzir as preferências de compra dos consumidores , operacionalizando na mesma cadeia corporativa do Facebook/WhatsApp desde a agricultura no campo até o varejo nas cidades”.

Segundo ela, um dos exemplos mais típicos é o da Twiga Foods, no Quênia. “Essa é uma start up da tecnologia agrícola digital , criada dentro do programa For Africa, da Microsoft, cujo lançamento foi financiado pela própria empresa em conjunto com o Banco Mundial e desenvolvido por um pesquisador estadunidense. O objetivo é ligar produtores a  consumidores diretamente, para tirar os grandes cartéis de intermediação de alimentos”.

“Hoje, todas as grandes corporações da agricultura, em associação com outras grandes da tecnologia, têm aplicativos nos celulares, nos tratores e drones para coletar e processar dados. A capacidade de captura e processamento em ambientes homogêneos em grandes áreas, que têm um só tipo de cultivo, como soja e milho, dá uma qualidade de recomendação e de segurança para o sistema de crédito”, explica.

Com a digitalização da agricultura, os agricultores acabam enredados ainda mais na cadeia industrial global de alimentos, que por sua vez é cada vez mais concentrada pelas integrações entre o sistema financeiro, as fintechs e as grandes empresas tecnológicas da agricultura.

Larissa exemplifica: “compra-se determinados insumos  – seja da Yara, da Syngenta, da Bayer e da Basf -, que são recomendados pelos algoritmos das bases de dados, e estes insumos são vinculados a microcrédito concedido a taxas mais baixas do que o sistema bancário convencional. Com a digitalização da agricultura, os agricultores acabam enredados ainda mais na cadeia industrial, global de alimentos cada vez mais concentrada pelas integrações entre o sistema financeiro, as fintechs, as grandes (empresas) tecnológicas e as grandes da agricultura”.

No Quênia, por exemplo, a empresa Twiga comprou uma frota de caminhões para levar a comida produzida no campo até os arredores de Nairobi, a capital, em transações de compra e venda era feitas dentro da plataforma Azuri, da Microsoft. A Twiga também faz uma aliança com a IBM, para produzir uma moeda digital de microcrédito, possibilitando o pagamento de produtos agrícolas (sementes etc) feito em moedas digitais de microcrédito.

A partir do sucesso do projeto, a Goldman Sachs e a rede se supermercados online Auchan, de origem francesa, se aliaram para eliminar os revendedores intermediários – levando à falência pequenas lojas e supermercados familiares que vendiam alimentos no varejo. Na África e na Índia a maior parte da distribuição de alimentos é feita por esses pequenos varejistas.

“As pequenas lojas foram centralizadas pelo aplicativo e passaram a ser provedores de um serviço, eliminando pequenas lojas familiares, como entregadores de delivery e não como pequenos negociantes, substituindo os cartéis por aplicativos, obrigando a economia e atendendo à estratégia de crescimento da Auchen na África”, critica Larissa.

Com esse rearranjo da cadeia digital, tem-se o incentivo à integração massiva e a uma agricultura de contrato, em que os pequenos agricultores e pequenos varejistas enredam-se nesses pacotes tecnológicos.

“Pelo lado do consumidor, há cada vez mais o grabing (grilagem) dos dados  a partir da compra e venda dessa personalização do consumo. O Facebook,  o Instagram e outras plataformas como essas, de coleta massiva de dados, constroem um perfil de consumidor e vendem a compra venda desses perfis para os parceiros das plataformas tecnológicas”, relata a pesquisadora brasileira.

A pandemia, de acordo com Larissa, acelerou uma profunda mudança dos hábitos de consumo. “As pessoas acabam indo para o e-commerce e se tem cada vez mais uma coleta gratuita de dados e a formação de um mercado de compra e venda desses perfis. Quando a Amazon ou a Ali Baba coletam os perfis e constroem aplicativos para a agricultura, tem-se o perfil do consumidor moldando o tipo e a escala da produção e, no meio, ligando as duas pontas”, relata.

“As plataformas digitais eliminam pequenas indústrias familiares que intermediam o varejo, mas que acabam não sendo mais um negócio familiar, e sim servidores dentro dessa indústria digitalizada  do sistema alimentar, numa grande extração de mais valia”.

Larissa explica que quando as big techs “pulam” o sistema alimentar, tem-se uma tendência à monopolização da cadeia produtiva, eliminando e concentrando tanto pequenos quanto grandes intermediários no comércio de alimentos .  “Na Índia, as corporações já quebram o sistema estatal de regulação de preços e impõem um preço aos produtores, pagando muito menos e também impondo preços para os consumidores”..

Foto: Diário de Notícias

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