+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Leilão de Reserva de Capacidade reabre consulta pública em meio a polêmica

Ambientalistas denunciam possível favorecimento à Usina de Carvão Candiota III  

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou na última sexta-feira (22) a abertura de duas consultas públicas para o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026. A decisão foi oficializada por meio da Portaria MME nº 859, de 22/08/2025, que define as diretrizes e a sistemática para a contratação de potência elétrica a partir de usinas termelétricas a gás natural (novas e existentes), usinas a carvão mineral já em operação e ampliações de hidrelétricas.

No mesmo dia, o ministério também publicou a Portaria MME nº 860/2025, de 22/08/2025 estabelecendo diretrizes semelhantes para o certame voltado a usinas termelétricas a óleo (UTEs a óleo).

O Instituto Internacional ARAYARA lembra que o LRCAP 2025 havia sido cancelado em abril após disputas judiciais. Na época, a instituição classificou o certame como o “Leilão das Emissões”, ao publicar um Boletim Energético destacando o potencial de aumento nas emissões de gases de efeito estufa através da contratação de termelétrica a gás natural.

O LRCAP anterior, previsto para ocorrer em 27 de junho de 2025, recebeu o cadastramento de mais de 74 GW em projetos, totalizando 327 empreendimentos, conforme divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Desse montante, 67%, ou seja, 228 empreendimentos correspondiam a novas usinas termelétricas a gás natural, somando 61,6 GW de potência. 

O gerente de transição energética da ARAYARA, John Wurdig, destaca que em 2026, o Governo Federal realizará dois leilões para a Contratação de Potência Elétrica, ambos com um mesmo foco: contratar empreendimentos fósseis de petróleo, gás natural e do polêmico carvão mineral brasileiro, o maior emissor de gases de efeito estufa na Região Sul do Brasil.

 Lobby do carvão e recebimento de subsídio público de R$ 26 milhões para produzir energia elétrica e exportar para outro país 

Para os críticos, a medida beneficia exclusivamente a UTE Candiota III, no Rio Grande do Sul, uma vez que o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina, já havia sido contemplado pela minuta do Contrato de Energia de Reserva, estabelecido pela Portaria MME nº 844, de 24 de junho de 2025, assinada pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Esse contrato entra em vigor em 1º de janeiro de 2026, no âmbito do Programa de Transição Energética Justa (TEJ), instituído pela Lei nº 14.299, de 5 de janeiro de 2022. Tal legislação, contudo, é alvo da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 7095, ajuizada pela ARAYARA e por partidos políticos, atualmente em tramitação no Supremo Tribunal Federal.

Neste contexto, a UTE Candiota III, mesmo sendo alvo de ações na Justiça Federal — incluindo a liminar expedida na sexta-feira, 22/08, que suspendeu sua Licença de Operação —, enfrenta ainda dois processos no Ministério Público Federal e diversas investigações conduzidas pelo Ibama por omissões e crimes ambientais. Apesar desse histórico, fica evidente que o Ministério de Minas e Energia busca viabilizar uma solução para o empreendimento, cujo contrato de comercialização de energia elétrica venceu em dezembro de 2024. Além disso, após denúncias da ARAYARA, os subsídios mensais de aproximadamente R$ 12 milhões, provenientes da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e administrados pela CCEE haviam sido suspensos em março de 2025, mas retornaram já em junho e julho deste ano, somando mais de 26 milhões repassados a ÂMBAR Energia para produzir e vender/exportar energia no mercado spot e cujo valor é pago pelo consumidores brasileiros. 

Vale ressaltar que esse montante milionário era integralmente destinado à estatal gaúcha Companhia Riograndense de Mineração (CRM) para a compra de carvão mineral destinado ao abastecimento da usina da Âmbar Energia, pertencente ao grupo J&F Investimentos — controlador da JBS —, que adquiriu o empreendimento da Eletrobras em 2023 por R$ 72 milhões.

Jabutis e subsídios

Desde 2024, uma série de “jabutis” — matérias estranhas ao tema original — vêm sendo incluídos em Projetos de Lei com o objetivo de assegurar subsídios à UTE Candiota III. A manobra ocorre diante da proximidade do fim do apoio da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que, a partir de 2027, deixará de subsidiar o carvão utilizado na geração de energia por usinas térmicas no Brasil. 

Wurdig chama atenção para o “jabuti” inserido no PL das Eólicas Offshore, dispositivo vetado pelo Presidente da República, mas que ainda aguarda deliberação do Senado e da Câmara dos Deputados. A expectativa é de que o veto seja mantido, evitando que mais de R$ 92 bilhões sejam repassados à conta de energia elétrica dos consumidores brasileiros ao longo dos próximos 25 anos — valor apontado pela ARAYARA no estudo Global Energy Monitor: Carvão em expansão e queda em 2025.

“O Brasil não tem novos projetos de licenciamento ambiental de usinas a carvão em andamento, pois a UTE Nova Seival já teve o processo encerrado pelo Ibama, e a UTE Ouro Negro está sendo arquivada, conforme pedido da ARAYARA ao IBAMA em virtude de estar há mais de dois anos sem movimentação. Essa inclusão parece uma manobra para contemplar a UTE Candiota III”, afirma o engenheiro.

Menos eficiência e mais poluição

O Brasil não realiza leilões para novas usinas a carvão desde 2014, quando a Usina Pampa Sul, em Candiota (RS), foi contratada em um leilão do tipo A-5 e financiada pelo BNDES. Nos anos seguintes, buscou-se reduzir a participação do carvão na matriz elétrica devido ao seu elevado impacto ambiental. No entanto, após onze anos, o MME surpreendeu ao lançar o edital do LRCAP 2026, prevendo novamente a contratação de usinas termelétricas a carvão mineral — as menos eficientes e maiores emissoras de gases de efeito estufa do sistema elétrico brasileiro.

De acordo com levantamento da ARAYARA, apresentado em ação civil pública junto a Justiça Federal em julho de 2025, a UTE Candiota III acumula mais de R$ 200 milhões em multas aplicadas pelo Ibama e enfrenta dúvidas sobre a possibilidade de renovação de sua licença de operação, prevista para expirar em abril de 2026. Em 2024, esta usina ficou mais de cinco meses sem operação por problemas técnicos e operacionais, resultando inclusive na suspensão da sua operação comercial pela ANEEL, conforme denunciado pela ARAYARA no estudo UTE Candiota 2050 – O futuro insustentável da produção de energia elétrica a partir do carvão mineral subsidiado, disponível no monitor do carvão mineral. 

Risco climático e econômico às vésperas da COP 30 

Wurdig explica que, o Leilão das Emissões – LRCAP 2025 previa a contratação majoritária de usinas termelétricas a gás fóssil, cuja operação poderia resultar na emissão de até 1,11 gigatoneladas de CO₂ equivalente até 2050 — comprometendo parte das metas climáticas assumidas pelo Brasil. Agora, com o LRCAP 2026, o cenário se torna ainda mais preocupante, uma vez que o edital inclui não apenas térmicas a carvão mineral, mas também a óleo diesel, o que dificulta até mesmo estimar o volume total de emissões adicionais.

Para a Frente Nacional dos Consumidores, além do impacto ambiental, o modelo de contratação por disponibilidade onera consumidores, que pagam pela geração mesmo quando a energia não é utilizada. “Estamos diante de um leilão que contraria os compromissos climáticos do país, justamente às vésperas da COP 30 em Belém”, alerta o presidente do FNCE, Luiz Barata. 

O  futuro energético do Brasil

O diretor técnico da ARAYARA, Juliano Bueno, reforça a urgência de um debate público transparente e participativo sobre o futuro da matriz elétrica brasileira. Segundo ele, “se essa consulta pública seguir os mesmos moldes anteriores, priorizando combustíveis fósseis, estaremos diante de uma guinada perigosa que ampliará a dependência do país em relação a fontes poluentes”. Bueno alerta ainda que o Brasil corre o risco de vivenciar uma “transição energética dos combustíveis fósseis para os combustíveis fósseis”, em que a conta será paga pelo meio ambiente, pelos consumidores de energia e pelas cidades brasileiras, cada vez mais expostas ao aumento dos eventos climáticos extremos.

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Categorias
Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Arayara participa do novo relatório global do Global Monitor Energy que monitora expansão e declínio do carvão no mundo

O Instituto Internacional ARAYARA é coautor do relatório internacional Ascensão e Queda 2026 (Boom and Bust Coal 2026), produzido pela Global Energy Monitor (GEM) em parceria com organizações da sociedade civil e centros de pesquisa de diferentes países. A publicação acompanha as principais tendências globais da indústria do carvão, incluindo expansão de novas usinas, desativações, subsídios, políticas energéticas e os

Leia Mais »

Na mídia | Questionamentos judiciais fazem ANEEL adiar homologação do leilão de térmicas a combustíveis fósseis

FIESP e CNI criticam o certame e pedem para acompanhar o processo no TCU; Arayara pede ao tribunal a exclusão de usinas a carvão do processo. Por ClimaInfo 17/05/2026  Continua o imbróglio envolvendo o leilão de reserva de capacidade (LRCAP) de 2026, que contratou usinas a gás fóssil, carvão, óleo combustível e diesel, e só é elogiado pelas empresas que

Leia Mais »

Brazilian Federal Court Sets Historic Climate Precedent in Coal Power Plant Licensing Case

Brazil has just reached a historic milestone in climate and environmental litigation. In an unprecedented ruling, the Federal Court of Rio Grande do Sul determined that climate impacts and greenhouse gas (GHG) emissions must be formally considered as mandatory criteria in the environmental licensing process for a coal-fired power plant. The decision was issued in a public civil action filed

Leia Mais »

Justiça cria precedente histórico ao exigir análise climática para renovação da licença da Usina Candiota III

O Brasil acaba de registrar um marco inédito na Justiça climática e ambiental. Uma decisão da Justiça Federal do Rio Grande do Sul reconheceu, pela primeira vez, que os impactos climáticos e as emissões de gases de efeito estufa (GEE) precisam fazer parte obrigatoriamente da análise para renovação da licença ambiental de uma usina termelétrica a carvão mineral. A decisão

Leia Mais »