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ARTIGO – Carvão Mineral: investimento?

ARTIGO – Carvão Mineral: investimento?

Artigo do arcebispo de Porto Alegre na Zero Hora de hoje (27/01/20) sobre a Mina Guaíba

A possibilidade de exploração de carvão mineral às portas de Porto Alegre traz à tona o tema da sustentabilidade ambiental.
Pensar a Casa Comum, como o papa Francisco chama o meio ambiente em sua primeira carta encíclica, a Laudato Si, publicada em maio de 2015, reflete atenção para com a continuidade da vida nas suas diversas manifestações e consideração para com as futuras gerações.

Os recursos naturais são limitados. A exploração dos mesmos não pode guiar-se por formas imediatistas de entender a economia e a atividade comercial e produtiva.

Somente uma ética sólida é capaz de promover limites ao poder do mercado e da economia.

O uso indiscriminado dos recursos naturais não renováveis promovido pelos poderes econômico e político, os quais tendem a transformar tudo em mercadoria, mascarando e ocultando suas implicações e consequências, necessita ser estudado, para que sejam encontradas alternativas viáveis e saudáveis.

O atual modelo de desenvolvimento industrial e econômico dá sinais de exaurimento. É tempo de reunir as melhores forças da sociedade para promover cooperação e solidariedade, cuidado e responsabilidade coletiva.

O projeto de exploração do carvão mineral no Rio Grande do Sul, e de forma particular na região metropolitana de Porto Alegre, gera preocupações. Se por um lado promete oportunidade para os cidadãos, por outro não garante – e não há como garantir! – a preservação do solo, da água e do ar. O debate em torno das vantagens ou desvantagens, conveniências ou inconveniências do projeto não pode ser balizado somente pelo que é permitido ou não pela legislação vigente, mas pela sinceridade e verdade científica e política.

DOM JAIME SPENGLER
Arcebispo metropolitano de Porto Alegre, primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

ARTIGO – Carvão Mineral: investimento?

Dom Jaime Spengler: Cuidado e bom senso

Por Dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano de Porto Alegre e primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

A tarefa de cuidar e melhorar o mundo para as futuras gerações, requer de todos mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder que regem a sociedade. Trata-se de uma tarefa que exige bom senso, determinação e coragem.

A tradição bíblica ensina a ver o ser humano como protagonista de um processo no qual ele é receptor de favores e sujeito ativo de decisões que determinam o sentido de seu próprio ser. Ele é destinado a cuidar do meio ambiente. O cuidado é o suporte vital da liberdade, da inteligência e da criatividade. No desenvolvimento da obra do cuidado é possível colher os princípios, os valores e as atitudes que proporcionam o conviver e o bem-viver.

A Casa Comum, com tudo aquilo que ela oferece generosamente para uma vida digna para todos, clama por cuidado. Cuidado para com as pessoas, culturas, biomas, plantas, águas, ar, animais, enfim, cuidado com a Terra.

A sociedade moderna consome grande quantidade de energia. Os combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, têm sido a grande fonte de energia para suprir as necessidades da indústria.

Há sérias razões para buscar fontes alternativas de energia. O carvão mineral, por exemplo, é altamente poluente. Prejudica o meio ambiente desde a sua extração até a produção de seus subprodutos. É uma fonte de energia não renovável. O processo de sua combustão provoca emissão de gases poluentes na atmosfera, agravando o efeito estufa.Está em discussão a exploração de carvão mineral às margens do Rio Jacuí, na região de Eldorado do Sul e às portas da cidade de Porto Alegre.

Existem sérias objeções a respeito dessa iniciativa. Riscos de contaminação do solo, do ar e da água são reais. O viés econômico não pode ser o único critério para determinar a exploração ou não da mina. Certamente os avanços tecnológicos oferecem possibilidade de operações sempre mais confiáveis. Contudo há sempre uma conta ambiental a ser paga, além do impacto sobre a natureza e a saúde das pessoas que moram na região para usufruir de possíveis e questionáveis ganhos econômicos. Total segurança é algo impossível. Ninguém de bom senso é capaz de afirmar com absoluta segurança que a exploração é ambientalmente segura.

O cuidado promove e salva a vida. Nosso dever comum é dela cuidar e promover.

Artigo publicado no Jornal do Comércio