+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Sociedade civil participa de audiência da Câmara sobre racismo ambiental e justiça climática

A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados promoveu, ontem (19), uma audiência pública para debater racismo ambiental e justiça climática. O encontro, solicitado pelo deputado Nilto Tatto (PT-SP), contou com a presença de representantes do governo, especialistas e movimentos sociais, além do Instituto Internacional ARAYARA.

Nilto Tatto destacou a criminalização da população negra e indígena no Brasil em função das formas de ocupação urbana e rural, ressaltando a necessidade de incluir a dimensão racial nas políticas ambientais.

Confira:

 

 

Entre os destaques do debate, a representante do Ministério da Fazenda, Júlia Mascarello, apresentou o Plano de Transformação Ecológica, que busca alinhar empregabilidade, transição energética e investimentos em economias de baixo carbono. Ela também trouxe detalhes do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, voltado à valorização da biodiversidade como ativo estratégico para o país.

A diretora do programa da presidência da COP 30, Alice Amorim, afirmou que a próxima conferência do clima inaugura uma nova fase, com foco na implementação dos acordos já estabelecidos. Ela ressaltou a importância da 5ª carta da COP, documento inédito que reconhece a justiça climática como eixo central sem esvaziar o conceito, e defendeu a criação de espaços específicos para o debate racial. Amorim lembrou que, pela primeira vez, a COP terá dias temáticos dedicados às populações negras (19 e 20 de novembro), abrindo espaço para construção de diálogos e políticas.

Já a ativista Mônica Oliveira, da Coalizão Negra por Direitos, enfatizou que a questão racial não pode ser tratada como pauta minoritária. “A população mundial é majoritariamente não branca. No Brasil, mais de 50% é negra. Portanto, enfrentar o racismo ambiental é enfrentar também as desigualdades estruturais”, afirmou. Ela criticou a postura do governo brasileiro em negociações internacionais, cobrando que a dimensão racial seja representada de forma mais consistente.

Oliveira lembrou que a primeira carta da COP ignorou completamente a questão racial, que só passou a ser incorporada após intensa mobilização dos movimentos sociais. “A adaptação climática precisa ser antirracista e abranger tanto povos tradicionais quanto a população negra urbana — que representa cerca de 80% dos negros no Brasil”, completou.

Durante a audiência, foi apresentado ainda o Manifesto da Coalizão Negra por Direitos, reforçando a necessidade de incluir a justiça climática como política de Estado e reconhecer a centralidade do enfrentamento ao racismo ambiental nos processos de adaptação climática.

Contradições e questionamentos

Em sua fala, a mobilizadora. socioambiental da ARAYARA, Raíssa Felippe, criticou as contradições do governo brasileiro em relação à transição energética. Segundo ela, enquanto o discurso oficial aponta para uma agenda de transformação ecológica, as ações seguem priorizando a expansão dos combustíveis fósseis.

“Fala-se em transição energética, mas na prática seguimos investindo no atraso. O exemplo mais recente é o 5º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão, realizado em junho, que ofertou 172 blocos de petróleo e gás e arrematou 34. Só este leilão representa a perspectiva de gerar 90 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em emissões”, afirmou Felippe.

Ela lembrou que a exploração do petróleo no Brasil tem deixado um rastro de problemas sociais e ambientais. “Os royalties nunca deram conta de resolver os danos causados pela indústria. Ao contrário: as promessas de riqueza e desenvolvimento se transformaram em concentração de renda e agravamento das desigualdades, enquanto os impactos ambientais recaem sobre os mais pobres”, disse, citando o uso desse argumento por políticos do Amapá para defender a exploração de combustíveis fósseis na Foz do Amazonas.

Felippe também chamou atenção para a contradição entre o avanço da nova lei de licenciamento ambiental — que sofreu um desmonte ao flexibilizar regras para empreendimentos estratégicos do governo — e o discurso do Ministério da Fazenda sobre transformação ecológica. “Não é possível falar em economia verde e justiça climática enquanto se fragilizam as salvaguardas ambientais e se ignora o impacto direto dessas decisões sobre comunidades negras, indígenas e tradicionais”, concluiu.

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Categorias
Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Contribution: Roadmap on the Transition Away from Fossil Fuels in a Just, Orderly and Equitable Manner

Introduction ARAYARA International Institute is a federally recognized public interest organization, a member of the National Environmental Council and the National Water Resources Council, among other collegiate bodies in Brazil, and part of Brazilian civil society. It works to promote climate justice, socio-environmental protection, and a just energy transition. Based on its activities in Brazil and Latin America, the Institute

Leia Mais »

Na mídia | Transição energética ganha nova ferramenta no Brasil

Por: plurale.com.br Em Brasília, no próximo dia 27 de abril, o Instituto Internacional Arayara apresenta a representantes de órgãos do governo, especialistas, educadores, estudantes,ativistas e profissionais de diversas áreas o Monitor de Energia, ferramenta colaborativa que traz informações técnicas importantes para o entendimento do processo de transição energética. A plataforma interativa reúne dados, análises e visualizações sobre o setor energético

Leia Mais »

Contribuições do ARAYARA para os Mapas do Caminho – COP30 apontam caminhos para a transição justa longe dos combustíveis fósseis

Introdução O Instituto Internacional ARAYARA é uma organização de utilidade pública federal, membra do Conselho Nacional do Meio Ambiente e Conselho Nacional de Recursos Hídricos, entre outros órgão colegiados pelo Brasil, e da sociedade civil brasileira que atua na promoção da justiça climática, na defesa socioambiental e na transição energética energética justa. Com base em sua atuação no Brasil e

Leia Mais »

ARAYARA Proposes Solutions for a Just Energy Transition for the 1st Conference on Transitioning Away from Fossil Fuels

Introduction The organizing team of the First Conference on Transitioning Away from Fossil Fuels (https://transitionawayconference.com/), to be held in Santa Marta, Colombia, from April 24-29, 2026, and co-sponsored by the Governments of Colombia and the Netherlands, has opened a consultation for participation in Methodological Stage 1 of the Conference. Written contributions focus on practical solutions around three thematic pillars: (i)

Leia Mais »