+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Organizações brasileiras enviam carta à União Europeia contra o “PL da Devastação

Na última terça-feira (28/05), um amplo coletivo de organizações da sociedade civil e comunidade científica brasileira e internacional entregou uma carta aberta a representações diplomáticas internacionais denunciando os riscos associados ao Projeto de Lei 2159/2021 — apelidado de “PL da Devastação”.

O texto, que desmonta pilares da Política Nacional de Licenciamento Ambiental, propõe a flexibilização e até a dispensa da avaliação de impactos socioambientais, inclusive em obras de alto risco. A carta, assinada por diversas entidades, incluindo o Instituto Internacional ARAYARA, pede que os países considerem os riscos do projeto ao avaliar acordos internacionais e que pressionem o governo brasileiro a cumprir compromissos multilaterais de governança climática.

Acesse: Carta Aberta à Presidência do Conselho Europeu

“Especialistas não só do Brasil, mas de vários outros países, alertam que entre tantos impactos, essa medida pode também agravar o desmatamento na Amazônia, acelerar a savanização do bioma e comprometer o equilíbrio climático global, o que traria impactos graves para o abastecimento de água, a agricultura e a segurança alimentar no Brasil e em outras regiões, inclusive na Europa”, alertou Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico da ARAYARA.

Ele acrescenta que a iniciativa busca chamar atenção do Conselho Europeu quanto às ameaças representadas pelo PL no contexto da ratificação do Acordo União Europeia-Mercosul. “O projeto representa um grave retrocesso ambiental e democrático”, completou.

A “mãe de todas as boiadas” avança

Apesar da forte mobilização de ambientalistas, cientistas e movimentos sociais, o Projeto de Lei nº 2.159/2021 foi aprovado no último dia 21 de maio no Senado Federal, por 54 votos a favor e 13 contrários — todos da bancada do PT. Agora, o texto retorna à Câmara dos Deputados para uma nova votação.

“O PL 2159/2021 reduz drasticamente o número de empreendimentos que precisarão de licenciamento ambiental para sair do papel. Além disso, cria uma nova modalidade que permite a um órgão político autorizar obras, independentemente de seus impactos ambientais”, explica Lucas Kannoa, gerente do departamento jurídico da ARAYARA. 

“É um grave retrocesso nas políticas ambientais do país e enfraquece drasticamente o licenciamento ambiental, um dos principais instrumentos de controle, prevenção e mitigação de impactos socioambientais no Brasil”, concluiu.

De acordo com especialistas, o PL impede a análise de danos indiretos — como o desmatamento associado à construção de uma estrada — e viabiliza o chamado “licenciamento express”, permitindo que empresas obtenham licenças automaticamente, via formulário online, sem análise técnica prévia.

Riscos de tragédias e retrocesso climático

John Wurdig, engenheiro ambiental e gerente de Transição Energética da ARAYARA, manifestou preocupação especial com a Emenda 120, aprovada nas comissões do Senado. Segundo ele, a proposta enfraquece o licenciamento ambiental justamente para atividades com alto potencial poluidor, como usinas termelétricas movidas a gás fóssil ou carvão mineral.

“A concessão de licenças simplificadas para empreendimentos desse porte não assegura a segurança energética — pelo contrário, cria um cenário de insegurança jurídica, ao permitir a operação de projetos com mínima avaliação de seus impactos ambientais e sociais”, alertou Wurdig.

Nicole de Oliveira Figueiredo, diretora executiva da ARAYARA, destacou a importância de manter o modelo trifásico de licenciamento ambiental — composto pelas etapas prévia, de instalação e de operação — incluindo suas renovações periódicas.

“Qualquer flexibilização nesse processo compromete não apenas a proteção ambiental, mas também a saúde pública e os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil”, alertou Figueiredo.

Mobilização técnica e institucional

A iniciativa de buscar apoio internacional soma-se às mobilizações já em curso dentro do país. No dia 19 de maio, o Observatório do Clima entregou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, um dossiê técnico com mais de 100 páginas, detalhando inconstitucionalidades e riscos ambientais associados ao PL.

“O documento evidencia ameaças à segurança jurídica, aponta impactos ambientais severos e reforça a necessidade de uma revisão responsável do texto — especialmente às vésperas da COP30 — para assegurar um licenciamento ambiental robusto e compatível com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil”, destaca Figueiredo.

Principais riscos apontados no PL 2159/2021:

-Autolicenciamento: empresas poderão se licenciar automaticamente por meio de formulário online, sem supervisão técnica.

 

-Dispensa para atividades de risco: até 13 tipos de empreendimentos, como ampliações de hidrelétricas, ficariam isentos.

 

-Isenção para o agronegócio: atividades agropecuárias seriam dispensadas de licenciamento.

 

-Impactos sobre recursos hídricos: o projeto elimina a exigência de outorga para uso da água, comprometendo a segurança hídrica.

 

-Transferência de custos ambientais: empresas deixariam de arcar com a reparação de danos, repassando custos à sociedade e ao Estado.

 

“Além dos efeitos diretos sobre o meio ambiente, a proposta ameaça comunidades tradicionais, povos indígenas e unidades de conservação, ampliando desigualdades e conflitos fundiários”, enfatizou Vinicius Nora, biólogo e gerente de operações da ARAYARA.

Licença Ambiental Especial e riscos institucionais

Outro ponto crítico do chamado “PL da Devastação” é a criação da Licença Ambiental Especial (LAE), que autoriza o governo federal a classificar, por decreto, determinados empreendimentos como “prioritários ou estratégicos”. Esses projetos poderão ser liberados de etapas do licenciamento ambiental tradicional, mesmo quando apresentarem alto potencial de degradação socioambiental. A decisão caberá ao Conselho de Governo, composto por ministros de Estado.

Sara Ribeiro, gerente de relações institucionais da ARAYARA, lamenta que esse mecanismo possa facilitar e abrir caminho para a exploração de petróleo na Margem Equatorial, na região amazônica, favorecendo empreendimentos que, até então, ainda enfrentavam barreiras regulatórias e socioambientais.“O projeto compromete também a imagem internacional do Brasil em pleno ano da COP30,  que acontece no Pará, colocando o país na contramão da agenda climática global”, afirma Ribeiro.

Se aprovado na Câmara, um dos principais setores beneficiados será o agronegócio, que poderá operar sem necessidade de licenciamento ambiental em atividades extensivas, semi-intensivas e intensivas de pequeno porte — inclusive em áreas com vegetação nativa.

Foto: reprodução/ Creative Commons

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Categorias
Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Contribution: Roadmap on the Transition Away from Fossil Fuels in a Just, Orderly and Equitable Manner

Introduction ARAYARA International Institute is a federally recognized public interest organization, a member of the National Environmental Council and the National Water Resources Council, among other collegiate bodies in Brazil, and part of Brazilian civil society. It works to promote climate justice, socio-environmental protection, and a just energy transition. Based on its activities in Brazil and Latin America, the Institute

Leia Mais »

Na mídia | Transição energética ganha nova ferramenta no Brasil

Por: plurale.com.br Em Brasília, no próximo dia 27 de abril, o Instituto Internacional Arayara apresenta a representantes de órgãos do governo, especialistas, educadores, estudantes,ativistas e profissionais de diversas áreas o Monitor de Energia, ferramenta colaborativa que traz informações técnicas importantes para o entendimento do processo de transição energética. A plataforma interativa reúne dados, análises e visualizações sobre o setor energético

Leia Mais »

Contribuições do ARAYARA para os Mapas do Caminho – COP30 apontam caminhos para a transição justa longe dos combustíveis fósseis

Introdução O Instituto Internacional ARAYARA é uma organização de utilidade pública federal, membra do Conselho Nacional do Meio Ambiente e Conselho Nacional de Recursos Hídricos, entre outros órgão colegiados pelo Brasil, e da sociedade civil brasileira que atua na promoção da justiça climática, na defesa socioambiental e na transição energética energética justa. Com base em sua atuação no Brasil e

Leia Mais »

ARAYARA Proposes Solutions for a Just Energy Transition for the 1st Conference on Transitioning Away from Fossil Fuels

Introduction The organizing team of the First Conference on Transitioning Away from Fossil Fuels (https://transitionawayconference.com/), to be held in Santa Marta, Colombia, from April 24-29, 2026, and co-sponsored by the Governments of Colombia and the Netherlands, has opened a consultation for participation in Methodological Stage 1 of the Conference. Written contributions focus on practical solutions around three thematic pillars: (i)

Leia Mais »