Por: Urias Neto – Engenheiro Ambiental, Gerente de Engenharia Ambientas e Ciências/Licenciamento Ambiental
A possibilidade de que os Estados Unidos e Israel tenham subestimado a capacidade militar do Irã pode contribuir para a prolongação dos conflitos no Oriente Médio. Um conflito mais duradouro tende a ampliar as tensões no mercado internacional de energia, sobretudo porque a região concentra parte significativa da produção e do transporte global de petróleo e gás natural.
Esse cenário reacende o debate sobre segurança energética e transição energética. Aproximadamente 20% do petróleo comercializado mundialmente passa pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do sistema energético global. Qualquer restrição ou instabilidade nessa passagem pode gerar choques de oferta, pressionando os preços internacionais do petróleo e do gás e afetando cadeias produtivas em diversos países.
O impacto potencial não se limita aos grandes importadores asiáticos, como China e Índia. Economias altamente dependentes de importações de energia, como Japão e vários países da União Europeia, também estariam expostas a perturbações no fluxo de petróleo proveniente do Golfo Pérsico. Historicamente, episódios de instabilidade geopolítica na região têm provocado volatilidade significativa nos mercados energéticos internacionais.
A persistente dependência global de combustíveis fósseis expõe o sistema energético internacional a esse tipo de vulnerabilidade geopolítica. Em um cenário de maior diversificação energética e de expansão acelerada de fontes renováveis, os impactos econômicos e estratégicos de conflitos localizados tenderiam a ser menores. Entretanto, relatórios recentes da Agência Internacional de Energia indicam que o ritmo atual de descarbonização ainda é insuficiente para alinhar os sistemas energéticos às metas climáticas estabelecidas no Acordo de Paris e às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs).
Paradoxalmente, enquanto cresce o reconhecimento da urgência climática, diversas regiões do mundo continuam ampliando investimentos em combustíveis fósseis. Estudos apresentados no contexto da COP30 indicam que tanto o Brasil quanto a América Latina e Caribe mantêm uma trajetória de expansão da exploração de petróleo e gás, além do crescimento de projetos de usinas termelétricas a gás natural.
Nesse contexto, aumentos nos preços internacionais de petróleo e gás tendem a repercutir diretamente na economia brasileira. Mesmo com produção doméstica crescente, os preços de combustíveis no país permanecem fortemente influenciados pelas cotações internacionais do petróleo, especialmente pelo Brent. Assim, choques de preço decorrentes de tensões geopolíticas podem ser transmitidos ao consumidor brasileiro, independentemente do nível de produção nacional.
Ao mesmo tempo, políticas energéticas recentes indicam uma possível ampliação da dependência de gás natural no sistema elétrico brasileiro. O Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP 2026), por exemplo, prevê a contratação de novas usinas termelétricas a gás natural para garantir flexibilidade operacional ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Parte desses projetos depende de gás natural liquefeito (GNL) importado, cujo preço é altamente sensível às condições do mercado internacional e a eventos geopolíticos. Eventuais aumentos de custo tendem a ser repassados ao sistema elétrico por meio de encargos setoriais, como a Conta de Contratação de Capacidade (CONCAP), com impacto final sobre os consumidores.
Outro elemento relevante é a crescente inserção do Brasil no mercado global de petróleo como exportador. Atualmente, cerca de metade da produção nacional é destinada ao mercado externo. Em períodos de tensão internacional e restrição de oferta global, esse movimento pode se intensificar, ampliando as receitas de exportação do setor petrolífero, ao mesmo tempo em que expõe o mercado doméstico às dinâmicas de preços internacionais.
Esse conjunto de fatores evidencia como conflitos geopolíticos em regiões estratégicas continuam influenciando diretamente a economia global e reforça a centralidade do debate sobre diversificação energética, segurança do abastecimento e aceleração da transição para sistemas energéticos menos dependentes de combustíveis fósseis.














