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Fábrica de fertilizantes no norte do Paraná aposta no carvão mineral e ambientalistas fazem alerta

O município de Sapopema, no norte do estado do Paraná, volta a ser destaque nas discussões sobre os limites do desenvolvimento econômico baseado em combustíveis fósseis. 

Segundo dados do Monitor do Carvão Mineral, o projeto de uma fábrica de fertilizantes nitrogenados, estimado em 800 milhões de dólares, pretende utilizar o carvão mineral da região como insumo — justamente em um momento em que o mundo acelera a transição para fontes limpas e renováveis de energia.

Com foco na transição para energias limpas, o Monitor do Carvão Mineral tem como objetivo disponibilizar informações qualificadas sobre os impactos do carvão no Brasil e no mundo. A ação faz parte do Monitor Energia, plataforma criada pelo Instituto Internacional ARAYARA para reunir informações e análises sobre projetos ligados ao carvão mineral. A proposta é ampliar o acesso a dados confiáveis, estimular o debate público e apoiar a busca por alternativas sustentáveis.

Acesso às informações sob disputa

Desde abril de 2023, a ARAYARA tenta acesso ao processo de licenciamento ambiental da fábrica de fertilizante no Instituto Água e Terra (IAT). Apesar de a Lei de Acesso à Informação garantir transparência, a autarquia estadual tem restringido consultas, alegando necessidade de autorização da própria empresa interessada. 

“Após dois anos de negativas, conseguimos apenas acesso presencial, com “”vista física”” parcial dos documentos, em 14 de agosto de 2025, sem direito a fotos ou filmagens”, destaca o especialista  ambiental da instituição, Urias de Moura Bueno  Neto. 

Projeto de alto impacto

O empreendimento, gerido pela empresa Paranafert, prevê produzir 520 mil toneladas de ureia por ano — cerca de 7% da demanda nacional — a partir da gaseificação do carvão das jazidas de Sapopema e Sapopeminha, apresentadas como “as de melhor qualidade do país”. A expectativa é empregar de 200 a 800 trabalhadores temporários e manter outros 400 fixos.

Mas, por trás da promessa de empregos e produção agrícola, Moura alerta que o projeto carrega um passivo ambiental gigantesco. Segundo o especialista, as reservas locais, estimadas em 98 milhões de toneladas de carvão, alimentariam uma extração anual de quase 1 milhão de toneladas. “A produção anual de fertilizantes, considerando a conversão de carvão bruto em carvão beneficiado no Paraná,  resultaria na emissão de 1,2 milhão toneladas de dióxido de carbono, 1,2 milhão de toneladas – o equivalente a aproximadamente 828.175 carros circulando por um ano inteiro – um volume que contraria compromissos climáticos assumidos pelo Brasil”, afirma.

Água e poluição

O engenheiro ressalta que a fábrica demandaria a retirada diária de 12,8 mil m³ de água do rio Laranjinha, devolvendo menos do que capta. “O déficit hídrico, alerta, equivale ao consumo anual de uma cidade com mais de 15 mil habitantes, impondo forte pressão sobre a bacia hidrográfica”. Ele lembra também que, além disso, o processo produtivo geraria grandes volumes de cinzas secas e úmidas, resíduos que ampliam os riscos de contaminação do solo e dos cursos d’água.

“O licenciamento até menciona a possibilidade de adoção de tecnologias de captura e armazenamento de carbono em formações geológicas. No entanto, estudos apontam que tais soluções ainda são caras, experimentais e incapazes de neutralizar os danos ambientais esperados em um empreendimento dessa magnitude”, argumenta.

Legado de projetos fracassados

Conselheiro do CONAMA ( Conselho Nacional do Meio Ambiente) e Doutor em Riscos e Emergências Ambientais, o diretor técnico da ARAYARA, Juliano Bueno, relata que não é a primeira vez que se tenta transformar Sapopema em polo de carvão. Bueno explica que o Complexo Termelétrico Norte Pioneiro, proposto anos atrás, teve o licenciamento arquivado após forte questionamento social e ambiental. “O novo projeto de fertilizantes resgata a mesma lógica: apostar em um combustível altamente poluente em um momento de crise climática”..

Riscos para o futuro

Apesar das promessas de geração de empregos e crescimento econômico, o empreendimento levanta dúvidas sobre quem pagará a conta dos impactos. De acordo com Bueno, a  queima e gaseificação do carvão estão entre as principais responsáveis pelo aquecimento global, e países que ainda insistem nesse caminho podem enfrentar barreiras comerciais, sanções e perda de competitividade diante da transição energética em curso.

O conselheiro reforça que, enquanto o processo permanecer parado no IAT à espera do Relatório Ambiental Preliminar (RAP), as organizações ambientais seguirão em estado de alerta. “O licenciamento não pode ignorar os custos climáticos, sociais e ambientais do carvão. A decisão sobre Sapopema vai além de um debate local — é um teste para medir o real compromisso do Brasil com um futuro menos dependente de combustíveis fósseis.”

Fim do carvão

De acordo com o estudo “Ascensão e Queda 2025 – Rastreamento Global das Usinas de Carvão”, publicado em abril de 2025 pela Global Energy Monitor, em coautoria com o Instituto Internacional Arayara, a América Latina praticamente zerou as propostas para novas termelétricas a carvão. O Brasil não tem novos projetos de licenciamento ambiental de usinas a carvão em andamento, pois a UTE Nova Seival já teve o processo encerrado pelo Ibama, e a UTE Ouro Negro está sendo arquivada, conforme pedido da ARAYARA ao IBAMA em virtude de estar há mais de dois anos sem movimentação. 

O relatório também mostra que, nos 38 países mais ricos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o número de propostas de usinas a carvão despencou: de 142 em 2015 para apenas cinco em 2025. Ainda assim, especialistas alertam que o ritmo de fechamento das usinas existentes é insuficiente para atender às metas do Acordo de Paris. Hoje, as desativações somam 19 gigawatts por ano, mas seria necessário triplicar esse volume, chegando a 70 GW anuais, para manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC.

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