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Dois Biomas, Um Clima: Painel Expõe a Interdependência Amazônia-Cerrado e a Destruição por Commodities

A saúde da Amazônia depende intrinsecamente do Cerrado, e a destruição de um bioma não pode ser isolada da crise do outro. O painel “Two biomes, one climate: The Amazon-Cerrado connection”, realizado na quarta-feira, 19 de novembro, trouxe essa premissa para a programação do ARAYARA Amazon Climate Hub.

O evento, proposto pelo Centro de Análises de Crimes Climáticos (CCCA), da Holanda, reuniu especialistas e líderes comunitários para debater a lacuna na governança ambiental e a responsabilidade das cadeias de suprimentos globais na destruição da “savana mais biodiversa do planeta”.

Uma Conexão Orgânica e Histórica

Isabela Figueiredo (ISPN), referência em Cerrado, iniciou o debate destacando a interdependência vital entre os biomas, resumida na sigla ABCCC (Água, Biodiversidade, Carbono, Cultura).

“Não há parede entre ecossistemas, então a conexão do Cerrado com a Amazônia é orgânica, é histórica e ocorre em várias dimensões.”

Ela explicou que a umidade da Bacia Amazônica depende do Cerrado para precipitação e para a estabilidade de vazão de rios cruciais, muitos dos quais nascem no Cerrado. Embora muitas vezes invisível, o bioma detém 5% da biodiversidade do mundo e um enorme estoque de carbono.

Isabela alertou que o Cerrado, devido a legislações que consideram apenas florestas, sofre cada vez mais com o desmatamento, especialmente após a moratória da soja na Amazônia ter gerado um “vazamento de desmatamento” para o bioma vizinho.

Do Centro-Oeste ao Mercado Global: O Caminho da Destruição

O pesquisador Leonardo Godoy (CCCA) complexificou a leitura do desmatamento, mostrando como a infraestrutura de exportação conecta os biomas.

“Quem quer destruir para lucrar, não vê muita fronteira, então os desafios acabam sendo compartilhados.”

Ele explicou que a expansão da soja, vinda do Mato Grosso (Centro-Oeste), impulsiona o desmatamento na região e demanda infraestrutura que chega até portos como Santarém (Pará), integrando o Norte e o Sul do país. Essa “leitura complexa” da estrutura física, econômica e política é fundamental para entender a lucratividade da soja ilegal e as oportunidades de responsabilização internacional.

Algodão, Soja e a Responsabilidade Europeia

O painel destacou a corresponsabilidade dos países consumidores. Rafael Pieroni (Earthsight, ONG britânica) focou na produção de algodão, que fez do Brasil o maior exportador global nos últimos dois anos. Ele relatou o impacto nas comunidades locais:

“Um morador de comunidade local contou que ouvia as máquinas de longe, de repente elas já estavam produzindo na porta de sua casa, e em seguida já estavam expulsando os moradores.”

Rafael criticou as certificações superficiais, onde a auditoria é contratada pelos próprios fazendeiros, e defendeu que a estratégia mais eficaz é pressionar por novas regulamentações que impeçam produtos ligados a violações de direitos humanos, ambientais e corrupção de chegarem aos consumidores.

Tina Lutz (DUH, ONG alemã) confirmou a responsabilidade europeia, especialmente na cadeia da soja, crucial para a pecuária alemã. Ela observou que 20% da soja europeia agora vem do Cerrado, onde o desmatamento ilegal, o uso de agrotóxicos proibidos na Europa e o uso indevido de terras são comuns. A DUH busca ligar casos de violação ao fornecimento de grandes empresas, como a Bunge, para pressionar por leis de regulação na Europa.

A Vida em Risco na Linha de Frente do Cerrado

A fala de Eldo Barreto (Comunidade Tradicional de Correntina, Bahia) trouxe a dor da perda para o centro do debate. Ele descreveu a convivência de seus ancestrais com o Cerrado por gerações, em equilíbrio, contrastando com a devastação que viu acontecer em seus 40 anos de vida.

“Eu vi como a vegetação foi perdida. O mapa que foi mostrado aqui, eu vi acontecer, uma violação do direito daquele povo, da natureza e dos rios.”

Ele denunciou a ocupação irregular no Oeste da Bahia por monocultura e pistoleiros, citando casos de corrupção e violência que se estendem por décadas.

“Nosso território é bonito, tem muitas nascentes que abastecem rios importantes. Quem está ali não quer sair, é seu espaço de vida, e quem quer tirar não respeita e vem tirar da pior forma. Acabar com o Cerrado é colocar a vida humana e não humana em risco.”

O painel concluiu que, para fortalecer a aplicação das leis ambientais, é urgente tratar Amazônia e Cerrado como sistemas interconectados e reconhecer as comunidades locais como guardiãs fundamentais desses ecossistemas.

Foto: Odaraê Filmes

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