+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Dois Biomas, Um Clima: Painel Expõe a Interdependência Amazônia-Cerrado e a Destruição por Commodities

A saúde da Amazônia depende intrinsecamente do Cerrado, e a destruição de um bioma não pode ser isolada da crise do outro. O painel “Two biomes, one climate: The Amazon-Cerrado connection”, realizado na quarta-feira, 19 de novembro, trouxe essa premissa para a programação do ARAYARA Amazon Climate Hub.

O evento, proposto pelo Centro de Análises de Crimes Climáticos (CCCA), da Holanda, reuniu especialistas e líderes comunitários para debater a lacuna na governança ambiental e a responsabilidade das cadeias de suprimentos globais na destruição da “savana mais biodiversa do planeta”.

Uma Conexão Orgânica e Histórica

Isabela Figueiredo (ISPN), referência em Cerrado, iniciou o debate destacando a interdependência vital entre os biomas, resumida na sigla ABCCC (Água, Biodiversidade, Carbono, Cultura).

“Não há parede entre ecossistemas, então a conexão do Cerrado com a Amazônia é orgânica, é histórica e ocorre em várias dimensões.”

Ela explicou que a umidade da Bacia Amazônica depende do Cerrado para precipitação e para a estabilidade de vazão de rios cruciais, muitos dos quais nascem no Cerrado. Embora muitas vezes invisível, o bioma detém 5% da biodiversidade do mundo e um enorme estoque de carbono.

Isabela alertou que o Cerrado, devido a legislações que consideram apenas florestas, sofre cada vez mais com o desmatamento, especialmente após a moratória da soja na Amazônia ter gerado um “vazamento de desmatamento” para o bioma vizinho.

Do Centro-Oeste ao Mercado Global: O Caminho da Destruição

O pesquisador Leonardo Godoy (CCCA) complexificou a leitura do desmatamento, mostrando como a infraestrutura de exportação conecta os biomas.

“Quem quer destruir para lucrar, não vê muita fronteira, então os desafios acabam sendo compartilhados.”

Ele explicou que a expansão da soja, vinda do Mato Grosso (Centro-Oeste), impulsiona o desmatamento na região e demanda infraestrutura que chega até portos como Santarém (Pará), integrando o Norte e o Sul do país. Essa “leitura complexa” da estrutura física, econômica e política é fundamental para entender a lucratividade da soja ilegal e as oportunidades de responsabilização internacional.

Algodão, Soja e a Responsabilidade Europeia

O painel destacou a corresponsabilidade dos países consumidores. Rafael Pieroni (Earthsight, ONG britânica) focou na produção de algodão, que fez do Brasil o maior exportador global nos últimos dois anos. Ele relatou o impacto nas comunidades locais:

“Um morador de comunidade local contou que ouvia as máquinas de longe, de repente elas já estavam produzindo na porta de sua casa, e em seguida já estavam expulsando os moradores.”

Rafael criticou as certificações superficiais, onde a auditoria é contratada pelos próprios fazendeiros, e defendeu que a estratégia mais eficaz é pressionar por novas regulamentações que impeçam produtos ligados a violações de direitos humanos, ambientais e corrupção de chegarem aos consumidores.

Tina Lutz (DUH, ONG alemã) confirmou a responsabilidade europeia, especialmente na cadeia da soja, crucial para a pecuária alemã. Ela observou que 20% da soja europeia agora vem do Cerrado, onde o desmatamento ilegal, o uso de agrotóxicos proibidos na Europa e o uso indevido de terras são comuns. A DUH busca ligar casos de violação ao fornecimento de grandes empresas, como a Bunge, para pressionar por leis de regulação na Europa.

A Vida em Risco na Linha de Frente do Cerrado

A fala de Eldo Barreto (Comunidade Tradicional de Correntina, Bahia) trouxe a dor da perda para o centro do debate. Ele descreveu a convivência de seus ancestrais com o Cerrado por gerações, em equilíbrio, contrastando com a devastação que viu acontecer em seus 40 anos de vida.

“Eu vi como a vegetação foi perdida. O mapa que foi mostrado aqui, eu vi acontecer, uma violação do direito daquele povo, da natureza e dos rios.”

Ele denunciou a ocupação irregular no Oeste da Bahia por monocultura e pistoleiros, citando casos de corrupção e violência que se estendem por décadas.

“Nosso território é bonito, tem muitas nascentes que abastecem rios importantes. Quem está ali não quer sair, é seu espaço de vida, e quem quer tirar não respeita e vem tirar da pior forma. Acabar com o Cerrado é colocar a vida humana e não humana em risco.”

O painel concluiu que, para fortalecer a aplicação das leis ambientais, é urgente tratar Amazônia e Cerrado como sistemas interconectados e reconhecer as comunidades locais como guardiãs fundamentais desses ecossistemas.

Foto: Odaraê Filmes

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Categorias
Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Reunião na ALEP Debate Novo Código Florestal do Paraná e Revela Pontos Críticos

A Assembleia Legislativa do Paraná sediou, na manhã desta quinta-feira (26), uma reunião pública para debater o Projeto de Lei nº 80/2026, que propõe a criação de uma nova Política Ambiental de Proteção, Gestão e Uso Sustentável da Vegetação no estado, na prática, um novo Código Florestal estadual. A iniciativa, conduzida pelo deputado estadual Goura (PDT), reuniu representantes do poder

Leia Mais »

LRCAP 2026: Retorno do Carvão Mineral Eleva Riscos Climáticos e Custos Energéticos ao Consumidor Brasileiro

O Instituto Internacional ARAYARA, como a maior ONG de litigância climática e ambiental da América Latina, informa à sociedade brasileira que vê com preocupação os resultados do Leilão – Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência de 2026 (LRCAP 2026) – UTEs a Gás Natural, Carvão Mineral e UHEs, que ocorreu hoje hoje (18.03). A Empresa de Pesquisa

Leia Mais »

Guerra no Irã e a transição energética

Por: Urias Neto – Engenheiro Ambiental, Gerente de Engenharia Ambientas e Ciências/Licenciamento Ambiental A possibilidade de que os Estados Unidos e Israel tenham subestimado a capacidade militar do Irã pode contribuir para a prolongação dos conflitos no Oriente Médio. Um conflito mais duradouro tende a ampliar as tensões no mercado internacional de energia, sobretudo porque a região concentra parte significativa

Leia Mais »