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Caso Bruno e Dom: investigação está longe de acabar

Polícia Federal segue investigando suspeitos e possível mandante; queremos justiça!

As buscas pelo indigenista Bruno Pereira, servidor licenciado da Funai (Fundação Nacional do Índio), e o jornalista britânico Dom Phillips, tiveram fim na tarde de terça-feira (15). O crime ocorrido na Terra Indígena Vale do Javari (AM)  foi confessado por Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como “Pelado”. O suspeito, previamente preso, teria esquartejado, queimado e enterrado os corpos das vítimas com a ajuda de seu irmão Oseney da Costa de Oliveira, o “Dos Santos”. No entanto, a Polícia Federal (PF) segue investigando o caso, com ainda oito suspeitos na mira e um possível mandante do crime.

 

No dia 17 de junho, a PF divulgou uma nota via comitê de crise afirmando que “os executores agiram sozinhos”, o que causou críticas por pessoas de dentro da organização e pela sociedade civil. Ainda há muito o que ser investigado, foi o que apontaram fontes da corporação, como por exemplo: encontrar as armas utilizadas nos crimes e interrogar os agentes políticos com quem Pereira iria se encontrar no dia que sumiu.

 

A suspeita é de que o crime tenha sido encomendado por quem se beneficia da pesca ilegal na região. A TI Vale do Javari possui histórico de conflitos de povos amazônicos com garimpo ilegal, tráfico de drogas, roubo de madeira e pesca ilegal. Testemunhas também afirmam que Pereira havia recebido diversas vezes ameaças de morte. O indigenista foi exonerado da Funai em 2019, depois de coordenar uma operação contra garimpo ilegal na T.I. Yanomami, em Roraima, que resultou na expulsão de centenas de garimpeiros. 

 

As buscas por Pereira e Phillips começaram ainda no dia de seu desaparecimento, em 5 de junho, por integrantes da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). As autoridades foram alertadas no dia seguinte, mas a lentidão do governo brasileiro em mobilizar especialistas e equipamentos como helicópteros foi apontada por entidades como a ONU (Organização das Nações Unidas). Foram envolvidas Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) e a PF, o exército, marinha e cerca de cem indígenas voluntários. 

 

Omissão do Estado

 

Somente no terceiro dia de buscas foram enviados reforço de mergulhadores e especialistas em busca na selva pela política estadual do Amazonas. A Marinha também chegou a enviar um helicóptero, que não havia sido usado antes porque, segundo a PF, os dois helicópteros disponíveis do Ibama foram incendiados em fevereiro, a mando de um empresário envolvido com garimpo ilegal em Roraima. 

 

Um levantamento feito pelo Estadão apontou que existem apenas seis agentes da Força Nacional para a TI Vale do Javari, que possui 85 mil km², quase duas vezes o tamanho do estado do Espírito Santo. Foram ao menos seis pedidos de reforço da proteção para a região feito neste ano, no entanto, como apurou a Folha de São Paulo, o local foi abandonado, deixando programas como manejo sustentável do peixe pirarucu apenas no papel – o que intensificou a pesca ilegal e conflitos na região. 

 

As respostas do presidente Bolsonaro frente ao caso – dizendo que a dupla desaparecida fazia uma “aventura” -, e a declaração Funai culpabilizando as vítimas pelo seu desaparecimento, apontam o descaso das autoridades brasileiras com a proteção de ativistas ambientais, comunidades tradicionais e a sociedade brasileira como um todo. 

 

Já o vice-presidente, Hamilton Mourão, fez declaração apontando que as mortes podem terem sido ordenadas por um comerciante local que “estava se sentindo prejudicado”. Mourão chegou também a citar que os assassinos tenham sido ribeirinhos embriagados. Segundo a ONG Global Witness, o Brasil é o quarto país do mundo que mais mata ativistas ambientais. Eis aí o retrato do por quê. 

 

A Justiça Federal da 1ª Região chegou a condenar a Funai a retirar qualquer acusação ou fala depreciativa à Univaja e ao indigenista Bruno Pereira e ao jornalista Dom Phillips. A decisão também ordenou que a nota de esclarecimento da entidade fosse retirada de veículos oficiais e mídias, por conter afirmações incompatíveis com a realidade, além de determinar que a Funai enviasse forças de segurança pública para garantir a integridade dos servidores e povos do Vale do Javari. 

 

No último dia 20, Amarildo voltou atrás na sua declaração e negou ter matado Pereira e Phillips. O suspeito alegou ter jogado os corpos em uma parte da mata, mas não ter participado da execução. O caso está longe de acabar, tendo em vista que este não é um caso isolado, muito menos de pouca importância como as opiniões dos principais representantes da república querem que pareça.

 

Dez dias após o anúncio de que o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) acompanharia as investigações das mortes do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o grupo de trabalho foi revogado pelo Procurador-Geral da República, Augusto Aras.

 

Indígenas e ambientalistas têm promovido manifestações cobrando justiça por Pereira e Phillips. Atos aconteceram em diversas cidades brasileiras, como em Brasília, Manaus, São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba, além de manifestações internacionais. 

 

A justiça vai muito além da prisão dos assassinos. Afinal, a quem interessa o silenciamento de Pereira e Phillips? Como a máquina pública se omite e é usada como instrumento para aniquilação de servidores e ativistas ambientais e de direitos humanos? Seus nomes, seu legado, a Terra Indígena Vale do Javari e este caso, não devem ser esquecidos pela sociedade brasileira. 

 

Assista a entrevista feita com a Cacica Ju Kerexu, entre cantos e rezas, na manifestação do último dia 23 em Curitiba. O ato pela vida é sobre a luta indígena e tantas perdas que vem ocorrendo, verdadeiros massacres.

 

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