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ARAYARA na Mídia: Por que gás natural não é alternativa sustentável

Petrobras celebra importação de gás natural da Argentina como de menor impacto ambiental. Porém, combustível fóssil polui mais do que dióxido de carbono e uso do fracking para extração causa danos socioambientais.A Petrobras comemorou no início de outubro a primeira importação de gás natural da Argentina como um compromisso com o “desenvolvimento sustentável”. No entanto, o uso deste tipo de combustível fóssil impulsiona o aquecimento global e vai contra iniciativas para diminuir as emissões que causam as mudanças climáticas.

Frequentemente vendido como “combustível de transição” e alternativa rumo à sustentabilidade, o gás natural é uma fonte energética constituída principalmente por metano (CH4), entre outros gases. As emissões de metano são 80 vezes mais potentes do que as de dióxido de carbono (CO2) em um período de 20 anos, podendo permanecer cerca de 12 anos na atmosfera.

Em setembro de 2024, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) do Brasil produziu uma nota técnica sobre as emissões de metano na cadeia do gás natural. Estima-se que há uma emissão total de aproximadamente 728 toneladas de CH4 por ano. O maior volume é emitido durante vazamentos que ocorrem ao longo do processo.

O climatologista e diretor técnico do Instituto Internacional Arayara, Juliano Araújo, responsabiliza o lobby entre as indústrias de petróleo e gás pela comercialização de gás natural como “energia verde” e destaca que o setor é um dos principais responsáveis pelas altas emissões de gases do efeito estufa.

Além dos efeitos ao clima, Araújo afirma que o uso de gás natural como fonte energética traz ainda impactos socioeconômicos para os brasileiros. Por gerar uma energia muito mais cara do que as outras alternativas, investir no uso desse combustível fóssil representa um empobrecimento da população, mais inflação e mais desemprego.

O especialista afirma que a narrativa do gás natural “sustentável” consiste em greenwashing, ou seja, uma estratégia de marketing utilizada para que um serviço ou produto venda sua imagem como sendo melhor para o meio ambiente do que realmente é.

Araújo equipara essa estratégia com a lenda do canto de uma sereia: a ideia de uma queima, em geral, mais limpa que os outros combustíveis fósseis traz um aspecto externo sedutor, como o da sereia, mas quando você é puxado para as profundezas, se depara com as etapas perigosas do processo, como o fracking, que na lenda seria o afogamento da pessoa encantada.

Problemas do fracking

Fracking, ou fraturamento hidráulico, é um método não convencional de extração de gás. “Injeta-se água, fluídos hidráulicos e mais de mil produtos químicos e radioativos para a retirada do metano de uma rocha sedimentar chamada xisto pirobetuminoso”, explica Araújo.

Todos esses compostos fazem com que os sedimentos se rompam e liberem o gás que ficava dentro deles. Os resíduos, por sua vez, em sua maioria permanecem no subsolo e contaminam os lençóis freáticos, o que também polui a água, o ar e toda a produção de alimentos no entorno.

Além disso, uma nota do Instituto Arayara aponta que, para realizar o fraturamento, são utilizados cerca de 11 milhões de litros de água por poço. Essa água é geralmente doce e retirada de diversas fontes hídricas, muitas de água potável. Em conjunto, são injetadas enormes quantidades de solventes químicos que, conforme o instituto, podem ser cancerígenos.

Mais de 90% dos fluidos resultantes do fracking podem permanecer no subsolo. Já no ar, podem ser liberados compostos como benzeno, etilbenzeno e tolueno. Esses químicos são extremamente tóxicos e estão relacionados a uma série de problemas de saúde.

Gás proveniente de Vaca Muerta

O gás natural não convencional que está sendo importado pela Petrobras é proveniente de Vaca Muerta, na Bacia de Neuquén, na Argentina.

“Os 15 anos de exploração do gás em Vaca Muerta não retiraram a pobreza nem a dívida da Argentina. E também não retiraram as dezenas de cidades que hoje são sacrificadas e contaminadas por metais pesados e por materiais radioativos advindos da exploração desse gás. O empobrecimento e o adoecimento de trabalhadores e de comunidades é uma realidade técnica e científica”, aponta o climatologista Juliano Araújo.

Os argentinos que mais sofrem os impactos dessa atividade na região são os mapuches, pertencentes ao povo indígena mais numeroso da Argentina e do Chile. A comunidade de Campo Maripe, em Neuquén, era um cenário de filme cercado por uma paisagem montanhosa, lagos azuis e numerosas formações rochosas. Entretanto, a partir de 2013 esse panorama se dissipou em meio à fumaça dos poços de fracking.

Lorena Maripe, integrante da Confederação Mapuche de Neuquén e habitante da comunidade, teve a sua realidade transformada pela exploração de gás na região. “Essa atividade afetou gravemente a nossa forma de viver, nossa cultura, economia e o espaço onde vivemos”, conta.

Os mapuches têm uma conexão intensa com a natureza e os astros. A sua cultura e cosmovisão são baseadas na oralidade e em ligações espirituais com os espaços terrenos. A terra seria uma parte constituinte do seu ser e, portanto, tudo o que acontece com ela seria sentido também pelos mapuches, não apenas de forma física e material.

Ainda assim, os impactos para a saúde na comunidade também são evidentes. “Sabemos que a contaminação da água afeta a nossa saúde diariamente”, aponta Lorena. Ela responsabiliza os metais pesados derivados do fracking pelos numerosos casos de câncer entre a comunidade e seus familiares, e o Estado pela violação de direitos do povo mapuche.

A DW questionou a Pluspetrol e YPF, responsáveis pela produção de gás natural na região, sobre as denúncias. As empresas não responderam até a publicação da reportagem.

Já a Petrobras afirmou que não tem como precisar a maneira com que o gás é extraído e acrescenta: “Por apresentar menor impacto ambiental, o gás natural tem potencial para contribuir com a redução das emissões de gases de efeito estufa e para a modernização do setor energético”.

 

Fonte: Revista Planeta

Foto: Reprodução / Pixabay

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