+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

“Xô Termelétrica”: audiência sobre UTE Brasília é suspensa após protestos e denúncias de irregularidades

Ato popular, falhas de segurança e ação judicial paralisam processo de licenciamento da termelétrica que ameaça o Rio Melchior e pode agravar a crise hídrica no DF.

A audiência pública para apresentação do Estudo de Impacto Ambiental e do Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) da Usina Termelétrica (UTE) Brasília, prevista para a última terça-feira (17), foi oficialmente suspensa pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A decisão foi tomada após intensa mobilização popular no Centro Cultural de Samambaia, no Distrito Federal, onde o evento chegou a ser iniciado.

Mais de 400 pessoas lotaram o auditório e protestaram com palavras de ordem como “Xô Termelétrica” e “Salve o Rio Melchior”, rejeitando a instalação do empreendimento. Além dos impactos ambientais apontados, os manifestantes denunciaram o risco de remoção da Escola Classe Guariroba, que atende cerca de 560 alunos e está localizada na área destinada à usina.

O gerente de Transição Energética da ARAYARA, John Wurdig, explica que a organização havia protocolado uma denúncia técnica alertando para irregularidades no local da audiência. Entre os problemas apontados estavam a ausência de alvará emitido pelo Corpo de Bombeiros, falhas graves no sistema de combate a incêndios — como a inexistência de extintores, mangueiras danificadas e amarradas com fitas plásticas — além da falta de sinalização adequada de emergência. Todas essas falhas representam descumprimento de normas técnicas obrigatórias e colocam em risco a segurança dos participantes.

“Mesmo diante dos alertas, a empresa responsável, Termo Norte Energia, apresentou apenas uma declaração genérica da Secretaria de Cultura do DF, sem validade para fins de segurança”, pontuou Wurdig. A situação levou o Ibama a suspender a audiência às 19h45, conforme registrado em ata oficial.

O que diz a ata de reunião do IBAMA

Conforme registrado em ata oficial do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o evento foi iniciado às 19h10, mas foi interrompido às 19h45 devido à intensa manifestação de moradores e ativistas contrários ao projeto.

Durante a apresentação do órgão ambiental, manifestantes gritaram palavras de ordem como “Fora Termelétrica”, “Xô Termelétrica” e “Salve o Rio Melchior”, além de críticas à possível remoção de uma escola da região.

Diante do alto nível de ruído e da inviabilidade de prosseguir com os trabalhos, a mesa diretora da audiência — composta por técnicos e coordenadores do Ibama — decidiu suspender a reunião por falta de condições mínimas para sua realização.

A audiência pública integra o processo de licenciamento da UTE Brasília, de responsabilidade da empresa Termonorte, conforme previsto pelas resoluções do Conama nº 01/1986 e nº 09/1987.

Licenciamento sob contestação

A UTE Brasília é um projeto movido a gás natural com capacidade de 1.470 MW, prevista para ser instalada em área sensível de Samambaia, próxima ao rio Melchior — um curso d’água já degradado e classificado como Classe IV, o pior nível de qualidade hídrica. A mobilização popular, reunida na campanha #XôTermelétrica, se intensificou nas Regiões Administrativas de Samambaia, Recanto das Emas, Ceilândia e Sol Nascente.

Vitórias judiciais e precedentes ambientais

Além da suspensão da audiência, o Instituto ARAYARA obteve recentemente outra vitória no campo jurídico: a Agência Reguladora de Águas do Distrito Federal (ADASA) suspendeu as outorgas hídricas do projeto, após Ação Civil Pública ajuizada pela organização.

“A suspensão da outorga é um marco histórico na litigância climática no Brasil. Mostra que é possível frear projetos fósseis com base técnica, jurídica e mobilização social”, afirma Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico da ARAYARA. Segundo ele, o caso da UTE Brasília poderá servir de precedente para barrar outros empreendimentos semelhantes em áreas urbanas e ambientalmente vulneráveis.

Em março deste ano, a 9ª Vara Federal Cível do DF também já havia determinado o adiamento da primeira audiência pública sobre o projeto, reforçando a fragilidade legal do processo de licenciamento.

Crise hídrica e racismo ambiental

Para o diretor técnico da ARAYARA, Juliano Bueno de Araújo, o projeto da UTE Brasília representa não apenas um risco ambiental, mas também um caso emblemático de injustiça socioambiental. A região afetada concentra populações vulnerabilizadas e já sofre com os efeitos do maior período de estiagem da história local — 167 dias sem chuva em 2024.

“A instalação de uma termelétrica em pleno Cerrado, às margens de um rio degradado, retirando uma escola pública para dar lugar à queima de gás, é o retrato do racismo ambiental. A sociedade de Samambaia deu seu recado: não aceitará retrocessos em nome de uma falsa modernização energética”, conclui Araújo.

 

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

ARAYARA participa de eventos preparatórios da COP30 e leva experiência em justiça climática aos debates

Esta última semana de agosto foi marcada por uma intensa agenda de atividades preparatórias para a COP30, reunindo sociedade civil, governo e especialistas em clima. O Instituto Internacional ARAYARA esteve presente em diferentes espaços de discussão, contribuindo com sua expertise socioambiental e trazendo a perspectiva das juventudes, das comunidades tradicionais e da justiça climática. Juventude em destaque na Consulta Regional

Leia Mais »

Audiência pública debate subsídios ao carvão e alternativas para uma transição energética justa

Parlamentares, especialistas e sociedade civil se reúnem para debater os impactos dos subsídios ao carvão e a coerência entre as  políticas energéticas e as metas climáticas assumidas. Na quinta-feira, 18 de setembro, das 11h às 12h30, a Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados realiza audiência pública para discutir os subsídios públicos destinados à geração de energia a partir

Leia Mais »

ARAYARA na Mídia: LRCAP: FNCE manifesta preocupação e vê contratações mais caras

Frente vê favorecimento a grupos econômicos que não atenderiam às exigências iniciais do certame A Frente Nacional dos Consumidores de Energia manifestou em nota à imprensa surpresa e preocupação com as diretrizes adotadas pelo Ministério de Minas e Energia para o Leilão de Reserva de Capacidade de 2026. Análise técnica das portarias postas em consulta pública indica que, inevitavelmente, o

Leia Mais »

ARAYARA na Mídia: Leilão de capacidade reacende críticas sobre lobby do carvão e riscos ambientais

MME reabre consulta pública em meio a denúncias de favorecimento à UTE Candiota III O Ministério de Minas e Energia (MME) reabriu em 22 de agosto de 2025 a consulta pública para o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026, por meio da Portaria nº 859/2025. A medida prevê a contratação de potência elétrica a partir de termelétricas movidas a gás natural, carvão mineral e óleo diesel,

Leia Mais »