+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Silêncio Judicial: Lançamento de Pesquisa Inédita na COP30 Expõe Assédio Contra Defensores Climáticos

O ARAYARA Amazon Climate Hub sediou, nesta terça-feira (11), o lançamento da pesquisa inédita “Mapeamento da Litigância Estratégica contra a Participação Pública no Brasil”, que revela como grandes atores utilizam o sistema de Justiça para intimidar, silenciar e criminalizar defensores ambientais, indígenas e quilombolas.

O evento, com o tema “Litigância Estratégica contra a Participação Pública (LEPPs): tendências, impactos e caminhos de ação”, reuniu juristas, acadêmicos e ativistas para debater as crescentes ameaças à liberdade de expressão e ao direito de participação pública em causas socioambientais. O Brasil, segundo o estudo, é o segundo país que mais mata defensores ambientais, e o assédio judicial surge como a segunda violência mais frequente contra ativistas.

O Uso Abusivo do Judiciário para Silenciar

A pesquisa, realizada pelo Instituto Internacional ARAYARA em parceria com o Escritório Modelo da PUC-SP e a Clínica de Direitos Humanos e Direito Ambiental da UEA, propõe a adoção do termo LEPPs (Litigância Estratégica contra a Participação Pública) para descrever o fenômeno no contexto brasileiro.

A diretora executiva da ARAYARA, Nicole Oliveira, idealizadora do estudo, compartilhou uma experiência pessoal que a motivou a criar o Programa Defensores dos Defensores. Ela relatou ter sido alvo de um processo criminal de uma empresa após entrar com uma liminar para suspender um leilão de termelétricas a gás, um episódio que evidenciou a violência do assédio judicial.

A pesquisadora Heloisa Simão explicou a escolha do termo: “O que nos intrigava era que no Brasil o silenciamento individual promovido por empresas não daria conta de como a coisa aqui acontecia. ‘SLAPPs’ não faria sentido aqui para mim. Então LEPPs é o que encontramos como contribuição a esse campo a partir de uma perspectiva brasileira“.

O estudo define LEPPs como um abuso do direito de ação por atores públicos ou privados em assimetria de poder, que ajuízam processos criminais ou cíveis contra defensores, com o objetivo primário de intimidação, silenciamento e deslegitimação do seu legítimo ato de participação pública.

O Professor André Geraldes (PUC-SP) resumiu a questão ética e legal: “Todos têm o direito a usar o judiciário, mas usar o judiciário de forma abusiva, para calar pessoas que lutam contra os direitos humanos, essa tem que ser condenada como sendo uma litigância de má-fé”.

Criminalização: O Foco na Esfera Penal

Os achados da pesquisa demonstram que a criminalização é a principal estratégia usada para despolitizar os conflitos e exaurir os defensores.

Os estudantes de Direito Giovana e Samuel (UNB) trouxeram dados da pesquisa, indicando um padrão preocupante: 54% dos casos analisados se enquadram na esfera criminal.

Essa estratégia busca enquadrar reivindicações sociais legítimas como criminosas. Samuel destacou que uma das teses mais usadas é a distorção do direito de propriedade e de posse, fazendo com que este direito se sobreponha a outros, como o direito à reparação ou o direito ambiental.

O advogado popular e pesquisador João Vitor Lisboa Batista (Clínica de Direito Ambiental da UEA) alertou para o efeito devastador das LEPPs na vida dos defensores: “Esse tipo de litigância é efetiva, porque a pessoa se sente ameaçada em todos os aspectos da sua vida”. Para ele, a estratégia de defesa deve partir de um “processo de repolitização do litígio”.

O Custo da Defesa e o Efeito Inibidor

O pesquisador Eneias Xavier (Clínica de Direitos Humanos e Direito Ambiental da UEA) trouxe a reflexão sobre a desigualdade de forças. “O que acontece quando o próprio judiciário ou polícia é usado contra o direito de um defensor, muitas vezes já pertencente a um grupo marginalizado? É uma disputa desigual.”

Segundo o pesquisador, os efeitos pretendidos pelas LEPPs são claros: tirar do cenário político e social quem “atrapalha” interesses econômicos, gerando um impacto reputacional e um custo financeiro e emocional altíssimo. A mera existência da ação, mesmo sem condenação no mérito, já cumpre seu papel de desmobilização.

Charlie Kolt, da CLidef, trouxe o contexto global das SLAPPs e reforçou que a estratégia internacional não é apenas garantir que as ações sejam mal-sucedidas, mas também fazer com que elas se voltem contra os próprios agentes agressores.

A Luta Quilombola e a Garantia Territorial

A realidade dos defensores quilombolas no Maranhão foi apresentada por Doutora Lígia (Centro de Cultura Negra do Maranhão), que coordena o projeto “Vida de Negro”.

“As comunidades enfrentam criminalização sistemática,” afirmou Lígia, destacando que o projeto acompanha mais de 20 territórios na luta pela titulação. A garantia do título definitivo evitaria muitas violações.

Célia, mulher quilombola ligada ao mesmo projeto, trouxe o depoimento da ponta, reiterando a importância da ação coletiva. “A gente percebe e sente na pele tudo isso que vocês relataram,” disse Célia. “Aqui no Vida de Negro nós fazemos esses enfrentamentos através da coletividade.” Ela menciona a elaboração de um manual de autoproteção em parceria com a CONAQ e Oxfam: “Criamos estratégias para continuarmos vivos”.

A pesquisa, ao trazer à luz os padrões das LEPPs, busca contribuir para o fortalecimento da agenda de defesa de defensores e seus territórios, posicionando o Judiciário como ferramenta de proteção de direitos, e não de controle social e perseguição patrimonial.

Acesse aqui o estudo completo.

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Na defesa das usinas nucleares falta argumento, sobra mediocridade

Heitor Scalambrini Costa Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco Zoraide Vilasboas Ativista socioambiental, integrante da Articulação Antinuclear Brasileira   Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3 e constrói mais 10.000 MW de novas usinas nucleares, como propõe o Plano Nacional de Energia 2050, a mediocridade dos argumentos pró

Leia Mais »

Aviso de Convocação – Assembleia Geral Ordinária

O Instituto Internacional ARAYARA convoca os(as) associados(as) com filiação regular e quites com as taxas anuais e remidas, e que estejam em pleno gozo de seus direitos estatutários, para a Assembleia Geral Ordinária a ser realizada em formato híbrido no dia 18 de dezembro de 2025, às 18h30 em primeira chamada e às 19h00 em segunda chamada. A participação poderá

Leia Mais »

Audiência pública sobre o fracking no STJ : uma das maiores ameaças à saúde humana e prejuízos ao agronegócio e às mulheres do Brasil

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) sedia, no dia 11 de dezembro de 2025, uma audiência pública de importância crucial para o futuro energético e ambiental do Brasil. O evento coloca em debate a exploração de gás de xisto (shale gas) por meio do fraturamento hidráulico (fracking), uma técnica não-convencional que, segundo dados e subsídios científicos compilados pelo Instituto Internacional

Leia Mais »

ARAYARA na Mídia: Roteiro brasileiro para fim dos combustíveis fósseis começa a sair do papel

Lula dá 60 dias para os ministérios do Meio Ambiente, Fazenda e Minas e Energia, e Casa Civil apresentarem as diretrizes para a transição energética justa, mas condiciona financiamento à exploração de petróleo e gás O despacho publicado ontem no Diário Oficial da União onde o presidente Lula convoca os ministérios de Minas e Energia, Fazenda e Meio Ambiente e mais a

Leia Mais »