+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

‘Sem mangue, sem beat’: organizações se mobilizam para proteger último manguezal não urbano de Pernambuco

Movimento cobra a criação de reserva extrativista para garantir biodiversidade e o modo de vida de pescadores e marisqueiras

 

Como seria a vida no litoral sem os manguezais? Essa é a pergunta que tem mobilizado mais de 30 instituições da sociedade civil — entre elas o Instituto Internacional ARAYARA —, além de pescadores artesanais, comunidades tradicionais do sul de Pernambuco, parlamentares e movimentos sociais em defesa da preservação desses ecossistemas. 

Nas últimas semanas, movimentos sociais, comunidades tradicionais e organizações ambientais intensificaram a campanha #SemMangueSemBeat, que reivindica a criação da Reserva Extrativista (Resex) do Rio Formoso. Com 2.240 hectares, a área abriga o último grande manguezal não urbano de Pernambuco e é essencial para a subsistência de aproximadamente 2.300 pescadores e marisqueiras nos municípios de Sirinhaém, Rio Formoso e Tamandaré.

Fruto de mais de 15 anos de mobilização, a campanha ganhou novo fôlego recentemente, com os organizadores concentrando esforços para pressionar a governadora Raquel Lyra (PSD) a encaminhar, na última sexta-feira (18), o projeto de criação da Resex ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O envio ocorreu em uma data especialmente simbólica: os 25 anos do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), reforçando o caráter histórico e estratégico da medida para a proteção dos manguezais e o fortalecimento das comunidades extrativistas da região.

A oceanógrafa e  coordenadora de Oceano e Água da ARAYARA, Kerlem Carvalho, explica que a participação  da instituição na campanha “#SemMangueSemBeat reafirma o seu compromisso em defender a vida, promover justiça social e ambiental e o apoio às comunidades tradicionais. 

“A iniciativa vai muito além de proteger o último grande manguezal não urbano de Pernambuco, ela é um instrumento concreto para viabilizar a criação da Reserva Extrativista do Rio Formoso, garantindo a preservação de ecossistemas essenciais e a sobrevivência de mais de 2.300 pescadores e marisqueiras que dependem diretamente desse habitat”, declara.

Carvalho também ressalta a importância da mobilização neste ano, quando se completam seis anos do derramamento de óleo na costa do Nordeste, que atingiu gravemente o litoral pernambucano, contaminou vastas áreas de manguezais e prejudicou a pesca artesanal. “O desastre ambiental expôs a vulnerabilidade desses ecossistemas e o impacto direto sobre a subsistência de milhares de famílias, reforçando a urgência de uma proteção legal efetiva e da conservação dos manguezais na região.”

 

Foto: ARAYARA/ Juliana Duarte

O que está em jogo sem os manguezais

Estudos apontam que os manguezais funcionam como um verdadeiro escudo climático, conseguindo estocar até cinco vezes mais carbono que florestas tropicais, além de reduzir a força das ondas e proteger as margens da erosão. “Com a emergência climática trazendo tempestades cada vez mais severas, a devastação dos manguezais torna as cidades costeiras ainda mais vulneráveis”, alerta a oceanógrafa.

A campanha alerta que sem os manguezais, não há pesca, não há proteção contra as tempestades que castigam as cidades costeiras, não há barreira contra as mudanças climáticas. Além disso, o manguezal do Rio Formoso abriga espécies-chave para a pesca artesanal e a culinária da região, como caranguejo-uçá, siri, aratu e ostra. Também é berçário para animais ameaçados de extinção, como o peixe-boi, o cavalo-marinho e o peixe mero.

 #SemMangueSemBeat faz referência ao movimento cultural Manguebeat, surgido em Recife nos anos 1990, para reforçar que a identidade cultural pernambucana também nasce no mangue. Veja quem está apoiando a campanha.

 

A Margem Equatorial também está em risco

A batalha pela Resex do Rio Formoso acontece em um cenário nacional de alerta para a destruição dos manguezais. Na chamada Margem Equatorial — uma faixa que vai do Oiapoque (AP) ao Rio Grande do Norte —, ambientalistas e cientistas denunciam há anos os riscos da exploração de petróleo. A região concentra 80% dos manguezais do Brasil, que estocam 1,5 bilhão de toneladas de CO₂ e sustentam a maior faixa contínua desse ecossistema no planeta.

Mesmo assim, em junho deste ano, o governo leiloou 34 blocos de exploração de petróleo, incluindo 19 na bacia da Foz do Amazonas. Isso apesar do Ibama já ter negado, em 2023, uma licença à Petrobras por falta de garantias ambientais.

“O correto seria interromper qualquer avanço em direção à exploração de petróleo na Amazônia. É um contrassenso devastar um ecossistema que ajuda a salvar o clima para extrair um combustível fóssil que o destrói”, alerta Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora-executiva da ARAYARA.

Os manguezais, além de capturar carbono, purificam as águas costeiras, sustentam a biodiversidade marinha e garantem a segurança alimentar e territorial de milhares de comunidades. Sem eles, não há peixe, não há marisco, não há defesa contra o mar.

 

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

NA MÍDIA | Projeto da maior usina termelétrica do país é vetado pelo Ibama por falta de informações conclusivas

Usina Termelétrica São Paulo seria construída em Caçapava e era alvo de protestos de ambientalistas; Fiocruz apontava ameaças à saúde   Por Lucas Altino — Rio de Janeiro – O GLOBO   O projeto do que seria a maior usina termelétrica do país e da América latina, em Caçapava (SP), foi vetado pelo Ibama. Nesta quarta (21), o Instituto indeferiu

Leia Mais »

Instituto Internacional ARAYARA integra litigância climática no STF contra retrocesso histórico da Lei de Licenciamento Ambiental

O Instituto Internacional ARAYARA ocupa papel de protagonismo na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) protocolada no Supremo Tribunal Federal (STF) contra dispositivos centrais da Lei nº 15.190/2025, conhecida como Lei Geral do Licenciamento Ambiental, e da Lei nº 15.300/2025, que institui o chamado Licenciamento Ambiental Especial. A ação foi proposta pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e pela Articulação dos

Leia Mais »

Na defesa das usinas nucleares falta argumento, sobra mediocridade

Heitor Scalambrini Costa Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco Zoraide Vilasboas Ativista socioambiental, integrante da Articulação Antinuclear Brasileira   Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3 e constrói mais 10.000 MW de novas usinas nucleares, como propõe o Plano Nacional de Energia 2050, a mediocridade dos argumentos pró

Leia Mais »

Aviso de Convocação – Assembleia Geral Ordinária

O Instituto Internacional ARAYARA convoca os(as) associados(as) com filiação regular e quites com as taxas anuais e remidas, e que estejam em pleno gozo de seus direitos estatutários, para a Assembleia Geral Ordinária a ser realizada em formato híbrido no dia 18 de dezembro de 2025, às 18h30 em primeira chamada e às 19h00 em segunda chamada. A participação poderá

Leia Mais »