+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Painel Expõe Lobby do Gás e Desmascara a Falsa Transição Energética na América Latina

A expansão desenfreada do gás natural e a urgência de uma Transição Justa foram o foco do painel “Reducción de emisiones de metano en los sectores energía y residuos desde los principios de la Transición Justa”, realizado no ARAYARA Amazon Climate Hub. O debate, organizado por entidades latino-americanas de defesa ambiental, expôs como a indústria fóssil avança no continente, ignorando compromissos climáticos e impactando diretamente a saúde e o território das comunidades.

Margarita Campuzano, que introduziu o painel, reforçou a tese de que o gás não é uma energia de transição, mas sim de regressão, que leva os países de volta aos combustíveis fósseis.

América Latina Lidera a Expansão Fóssil

Nicole Oliveira, diretora executiva da ARAYARA, apresentou dados do estudo Money Trail of Fossil Fuels, que mapeia o financiamento e as propostas de expansão de gás e petróleo na América do Sul e Caribe.

Os números são impressionantes: o Brasil é o grande líder da expansão fóssil na região com 2.673 novos blocos de petróleo e gás propostos.

A pesquisa revelou um plano continental para o gás natural, com gasodutos propostos que atravessam a América do Sul. A Argentina lidera com 12 gasodutos propostos, seguida por Brasil e México, que ocupam o segundo lugar. Nicole destacou a discrepância entre a demanda e a exploração, evidenciando que a extração não é impulsionada pela necessidade, mas sim pela disponibilidade e por interesses corporativos.

Ela criticou a tese do fracking “responsável”, argumentando que a extração de mais gás, independentemente da técnica, contribui para o agravamento do aquecimento global.

Evidência Científica e Ação Comunitária

Para combater a invisibilidade do problema, Patrícia, da Earth Works apresentou uma ferramenta vital: a tecnologia de Imagens Óticas de Gás (OGI). Trata-se de uma câmera de vídeo que permite visualizar o metano e outros gases tóxicos que não podem ser vistos a olho nu, mas que causam contaminação do ar, solo e água.

“O metano é o principal, porque é mais potente que o dióxido de carbono, mas têm outros gases tóxicos que saem junto das instalações de petróleo e gás,” explicou.

Essa tecnologia tem sido usada como estratégia de comunicação e litígio, fornecendo evidências para advogados em casos de sucesso, como uma denúncia contra o estado no Equador. A meta é que as comunidades se apropriem dessa ferramenta para futuramente poderem realizar seu próprio monitoramento.

Zonas de Sacrifício e Crise Humanitária

O impacto humano e a violência territorial foram trazidos por Juvelis Morales, do Tribunal Internacional do Direitos da Natureza e da Aliança Free Fracking Colômbia. Ela denunciou a desumanização e a naturalização do extrativismo em sua região, onde cerca de 19 mil poços de petróleo estão ativos, com planos futuros de expandir o fracking.

“Para nós [o fracking] é uma grave crise humanitária, somos violados historicamente,” afirmou Morales.

No México, o advogado Alberto Alarcones do CEMDA, detalhou os impactos nas operações em terra no Golfo do México, onde o aumento de operações resultou no aumento de emissões de metano e outros gases tóxicos. Ele citou danos à saúde neonatal e a construção de uma refinaria ao lado de uma escola com 500 alunos, que relatam dores de cabeça e sangramento nasal, além de outros danos.

“A refinaria foi construída ao lado de uma escola, não permite uma vida digna,” afirma Alarcones.

O advogado ressaltou que a transição justa é complexa e exige a mitigação dos efeitos do metano, mas também a resolução de obstáculos sociais, como a dificuldade de solicitar a relocalização de uma escola inteira com a sua comunidade de alunos e professores.

O Símbolo da Expansão Fóssil

Enrique Viale, presidente da Associação de Advogados Ambientais da Argentina, criticou a lógica da “próxima solução de ouro”, citando o exemplo de Vaca Muerta, poço de petróleo promovido como símbolo de orgulho nacional.

“Se fala no gás como ‘combustível ponte’, e tem essa lógica de ‘vamos extrair o máximo possível antes que o mundo proíba’,” alertou Viale, denunciando um modelo neocolonial onde a transição corporativa se sobrepõe à transição justa.

Viale lamentou ainda que o atual governo argentino, de extrema direita e declaradamente negacionista climático, tenha declarado Vaca Muerta como ativo estratégico.

Ao final, Juliano Bueno, diretor da ARAYARA, relembrou as vitórias de proibição do fracking em constituições estaduais e municipais no Brasil, agradecendo a todos que lutam contra a indústria fóssil não convencional, e prestando homenagem àqueles que perderam suas vidas na defesa dos territórios.

Fotos: Odaraê Filmes

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Categorias
Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Reunião na ALEP Debate Novo Código Florestal do Paraná e Revela Pontos Críticos

A Assembleia Legislativa do Paraná sediou, na manhã desta quinta-feira (26), uma reunião pública para debater o Projeto de Lei nº 80/2026, que propõe a criação de uma nova Política Ambiental de Proteção, Gestão e Uso Sustentável da Vegetação no estado, na prática, um novo Código Florestal estadual. A iniciativa, conduzida pelo deputado estadual Goura (PDT), reuniu representantes do poder

Leia Mais »

LRCAP 2026: Retorno do Carvão Mineral Eleva Riscos Climáticos e Custos Energéticos ao Consumidor Brasileiro

O Instituto Internacional ARAYARA, como a maior ONG de litigância climática e ambiental da América Latina, informa à sociedade brasileira que vê com preocupação os resultados do Leilão – Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência de 2026 (LRCAP 2026) – UTEs a Gás Natural, Carvão Mineral e UHEs, que ocorreu hoje hoje (18.03). A Empresa de Pesquisa

Leia Mais »

Guerra no Irã e a transição energética

Por: Urias Neto – Engenheiro Ambiental, Gerente de Engenharia Ambientas e Ciências/Licenciamento Ambiental A possibilidade de que os Estados Unidos e Israel tenham subestimado a capacidade militar do Irã pode contribuir para a prolongação dos conflitos no Oriente Médio. Um conflito mais duradouro tende a ampliar as tensões no mercado internacional de energia, sobretudo porque a região concentra parte significativa

Leia Mais »