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Painel Expõe Lobby do Gás e Desmascara a Falsa Transição Energética na América Latina

A expansão desenfreada do gás natural e a urgência de uma Transição Justa foram o foco do painel “Reducción de emisiones de metano en los sectores energía y residuos desde los principios de la Transición Justa”, realizado no ARAYARA Amazon Climate Hub. O debate, organizado por entidades latino-americanas de defesa ambiental, expôs como a indústria fóssil avança no continente, ignorando compromissos climáticos e impactando diretamente a saúde e o território das comunidades.

Margarita Campuzano, que introduziu o painel, reforçou a tese de que o gás não é uma energia de transição, mas sim de regressão, que leva os países de volta aos combustíveis fósseis.

América Latina Lidera a Expansão Fóssil

Nicole Oliveira, diretora executiva da ARAYARA, apresentou dados do estudo Money Trail of Fossil Fuels, que mapeia o financiamento e as propostas de expansão de gás e petróleo na América do Sul e Caribe.

Os números são impressionantes: o Brasil é o grande líder da expansão fóssil na região com 2.673 novos blocos de petróleo e gás propostos.

A pesquisa revelou um plano continental para o gás natural, com gasodutos propostos que atravessam a América do Sul. A Argentina lidera com 12 gasodutos propostos, seguida por Brasil e México, que ocupam o segundo lugar. Nicole destacou a discrepância entre a demanda e a exploração, evidenciando que a extração não é impulsionada pela necessidade, mas sim pela disponibilidade e por interesses corporativos.

Ela criticou a tese do fracking “responsável”, argumentando que a extração de mais gás, independentemente da técnica, contribui para o agravamento do aquecimento global.

Evidência Científica e Ação Comunitária

Para combater a invisibilidade do problema, Patrícia, da Earth Works apresentou uma ferramenta vital: a tecnologia de Imagens Óticas de Gás (OGI). Trata-se de uma câmera de vídeo que permite visualizar o metano e outros gases tóxicos que não podem ser vistos a olho nu, mas que causam contaminação do ar, solo e água.

“O metano é o principal, porque é mais potente que o dióxido de carbono, mas têm outros gases tóxicos que saem junto das instalações de petróleo e gás,” explicou.

Essa tecnologia tem sido usada como estratégia de comunicação e litígio, fornecendo evidências para advogados em casos de sucesso, como uma denúncia contra o estado no Equador. A meta é que as comunidades se apropriem dessa ferramenta para futuramente poderem realizar seu próprio monitoramento.

Zonas de Sacrifício e Crise Humanitária

O impacto humano e a violência territorial foram trazidos por Juvelis Morales, do Tribunal Internacional do Direitos da Natureza e da Aliança Free Fracking Colômbia. Ela denunciou a desumanização e a naturalização do extrativismo em sua região, onde cerca de 19 mil poços de petróleo estão ativos, com planos futuros de expandir o fracking.

“Para nós [o fracking] é uma grave crise humanitária, somos violados historicamente,” afirmou Morales.

No México, o advogado Alberto Alarcones do CEMDA, detalhou os impactos nas operações em terra no Golfo do México, onde o aumento de operações resultou no aumento de emissões de metano e outros gases tóxicos. Ele citou danos à saúde neonatal e a construção de uma refinaria ao lado de uma escola com 500 alunos, que relatam dores de cabeça e sangramento nasal, além de outros danos.

“A refinaria foi construída ao lado de uma escola, não permite uma vida digna,” afirma Alarcones.

O advogado ressaltou que a transição justa é complexa e exige a mitigação dos efeitos do metano, mas também a resolução de obstáculos sociais, como a dificuldade de solicitar a relocalização de uma escola inteira com a sua comunidade de alunos e professores.

O Símbolo da Expansão Fóssil

Enrique Viale, presidente da Associação de Advogados Ambientais da Argentina, criticou a lógica da “próxima solução de ouro”, citando o exemplo de Vaca Muerta, poço de petróleo promovido como símbolo de orgulho nacional.

“Se fala no gás como ‘combustível ponte’, e tem essa lógica de ‘vamos extrair o máximo possível antes que o mundo proíba’,” alertou Viale, denunciando um modelo neocolonial onde a transição corporativa se sobrepõe à transição justa.

Viale lamentou ainda que o atual governo argentino, de extrema direita e declaradamente negacionista climático, tenha declarado Vaca Muerta como ativo estratégico.

Ao final, Juliano Bueno, diretor da ARAYARA, relembrou as vitórias de proibição do fracking em constituições estaduais e municipais no Brasil, agradecendo a todos que lutam contra a indústria fóssil não convencional, e prestando homenagem àqueles que perderam suas vidas na defesa dos territórios.

Fotos: Odaraê Filmes

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