+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Na Mídia | Flexibilização do licenciamento ambiental entra em vigor nesta quarta com ações no STF alegando inconstitucionalidade

Derrubada de 56 vetos de Lula pelo Congresso restituiu ao texto dispositivos que ampliam modalidades simplificadas, reduzem a participação de órgãos setoriais e restringem exigências previstas em normas anteriores

Por Luis Felipe Azevedo — Rio de Janeiro – O Globo

 

A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que flexibiliza o processo de concessão de licenças, entrou em vigor nesta quarta-feira, 180 dias após a sanção com vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Posteriormente à decisão do Planalto, o Congresso Nacional derrubou os vetos do petista e três Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) foram apresentadas no Supremo Tribunal Federal (STF) por partidos políticos e organizações da sociedade civil.

A derrubada de 56 vetos de Lula pelo Congresso restituiu ao texto dispositivos que flexibilizam etapas do processo, ampliam modalidades simplificadas, reduzem a participação de órgãos setoriais e restringem exigências previstas em normas anteriores. Se para o governo, esses pontos haviam sido vetados por fragilizarem a proteção ambiental, a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) defende que tratava-se de uma “modernização necessária” para destravar investimentos.

A FPA vinha trabalhando pela derrubada dos vetos desde agosto, quando Lula indeferiu 63 dispositivos. O acirramento da crise entre o Planalto e o Congresso acabou fornecendo o ambiente político ideal para recuperar artigos estratégicos para o setor produtivo.

Autora de uma das ADIs, o Instituto Internacional Arayara demonstrou preocupação com a entrada em vigor da flexibilização. A mudança foi descrita como um “retrocesso relevante na proteção do meio ambiente, dos recursos naturais e da saúde das populações que dependem diretamente desses bens comuns”.

“O Brasil precisa fortalecer — e não reduzir — sua capacidade institucional de avaliar, prevenir e mitigar danos ambientais, por meio de processos baseados em evidências científicas, com transparência, controle social e respeito aos direitos das populações afetadas”, diz a organização.

Entenda o que mudou:

LAC poderá ser usada também para empreendimentos de médio impacto

Estados e municípios passam a poder aplicar a LAC a atividades de médio potencial poluidor. Na prática, mais empreendimentos poderão se enquadrar em processos autodeclaratórios — o que reduz análise prévia e acelera liberações. Ambientalistas apontam risco de “autolicenciamento” sem salvaguardas suficientes.

Estados e municípios ganham liberdade ampla para definir regras

A nova lei permite que cada ente federativo estabeleça seus próprios critérios sobre porte do empreendimento, modalidades de licença e atividades aptas à LAC. A mudança cria um cenário em que estados podem flexibilizar ou endurecer o licenciamento conforme prioridades políticas e econômicas locais.

Proteção da Mata Atlântica é afrouxada

Texto traz dispositivos que enfraquecem salvaguardas previstas na Lei da Mata Atlântica. Agora, a supressão de vegetação nativa em certos projetos pode ser autorizada com menos condicionantes, abrindo, segundo organizações ambientais, brechas para desmatamento em áreas sensíveis.

Consulta a povos indígenas e quilombolas fica mais restrita

A atuação de Funai e Fundação Palmares perde amplitude. Territórios indígenas e quilombolas ainda em estudo ou em fase de delimitação podem ficar fora da análise prévia, o que reduz o alcance da consulta livre, prévia e informada prevista na Constituição e em convenções internacionais.

Produtores com CAR pendente ficam dispensados de licenciamento

Dispositivo que permite dispensar do licenciamento proprietários rurais cujo Cadastro Ambiental Rural (CAR) ainda esteja em análise. A exigência de validação prévia do CAR deixa de ser um condicionante, eliminando uma etapa considerada essencial para aferir passivos ambientais.

Condicionantes passam a valer apenas para impactos diretos

Passam a valer regras que impedem exigir compensações por impactos indiretos — como pressão sobre estradas, serviços públicos, áreas de saúde e efeitos ambientais cumulativos. O alcance das medidas de mitigação fica restrito ao dano imediato, reduzindo o escopo de obrigações impostas aos empreendedores.

Órgãos de Unidades de Conservação perdem poder de veto técnico

A manifestação de gestores de unidades de conservação deixa de ser obrigatória e, sobretudo, deixa de ter caráter vinculante. Projetos que interfiram na área protegida ou na zona de amortecimento poderão avançar mesmo sem anuência do órgão responsável, como o ICMBio — um dos principais pontos de atrito com a equipe ambiental do governo.

Responsabilidade de instituições financeiras é reduzida

Nova lei enfraquece a exigência de que bancos verifiquem se o empreendimento financiado possui licenciamento ambiental regular. A concessão de crédito passa a depender menos da comprovação de conformidade ambiental, o que preocupa especialistas em risco jurídico e ambiental.

O que mais voltou ao texto com a derrubada dos vetos

  • Dispensa de licenciamento para atividades de impacto mínimo

Foi estabelecida a autorização para que estados e municípios dispensem licenciamento em obras classificadas como de baixo impacto, como:

  • pequenas ampliações de estruturas rurais,
  • manutenção de estradas vicinais,
  • projetos de irrigação de baixa escala,
  • linhas de transmissão em áreas já antropizadas.

Redução do papel de Funai, Iphan, ICMBio e órgãos setoriais

Passam a valer dispositivos que retiram o caráter vinculante de pareceres desses órgãos e permitem que podem ser desconsiderados pelo órgão licenciador — desde que com justificativa técnica. O governo havia vetado esse trecho sob o argumento de que fragilizaria avaliações em áreas sensíveis, como:

  • terras indígenas em estudo,
  • sítios arqueológicos,
  • zonas costeiras, dunas e restingas,

• • áreas de amortecimento de unidades de conservação.

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Na mídia | Mapa do caminho: sociedade civil propõe diretrizes para que plano de transição energética vá além da retórica

Por Luciana Casemiro – O Globo (28/01/2026) Termina na próxima sexta-feira o prazo dado pelo presidente Lula para que sejam estabelecidas as diretrizes para o plano transição energética no Brasil. O chamado mapa do caminho para o fim da dependência dos combustíveis fósseis foi uma proposta apresentada pelo governo brasileiro durante a COP, realizada em Belém, em novembro do ano

Leia Mais »

NA MÍDIA | Projeto da maior usina termelétrica do país é vetado pelo Ibama por falta de informações conclusivas

Usina Termelétrica São Paulo seria construída em Caçapava e era alvo de protestos de ambientalistas; Fiocruz apontava ameaças à saúde   Por Lucas Altino — Rio de Janeiro – O GLOBO   O projeto do que seria a maior usina termelétrica do país e da América latina, em Caçapava (SP), foi vetado pelo Ibama. Nesta quarta (21), o Instituto indeferiu

Leia Mais »

Instituto Internacional ARAYARA integra litigância climática no STF contra retrocesso histórico da Lei de Licenciamento Ambiental

O Instituto Internacional ARAYARA ocupa papel de protagonismo na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) protocolada no Supremo Tribunal Federal (STF) contra dispositivos centrais da Lei nº 15.190/2025, conhecida como Lei Geral do Licenciamento Ambiental, e da Lei nº 15.300/2025, que institui o chamado Licenciamento Ambiental Especial. A ação foi proposta pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e pela Articulação dos

Leia Mais »

Na defesa das usinas nucleares falta argumento, sobra mediocridade

Heitor Scalambrini Costa Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco Zoraide Vilasboas Ativista socioambiental, integrante da Articulação Antinuclear Brasileira   Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3 e constrói mais 10.000 MW de novas usinas nucleares, como propõe o Plano Nacional de Energia 2050, a mediocridade dos argumentos pró

Leia Mais »