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Autoproteção e Aliança: Lideranças Indígenas da América Latina se defendem em autogestão

A necessidade de fortalecer a autonomia e a autoproteção indígena diante da crise climática e da violência territorial foi o tema central do evento “Justiça Climática e Autonomia Indígena: Integrando a Defesa Territorial, a Proteção e as Estratégias de Resiliência nas Políticas Globais e Nacionaisl”, realizado no ARAYARA Amazon Climate Hub, nesta terça-feira (11).

Organizado pela Alianza Latinoamericana de Defensores y Defensoras de Territorios Indígenas (ALADTI), o encontro reuniu representantes de organizações de base indígena da América Latina – incluindo COICA, AMPB, APOINME e CARE – para discutir como a falta de segurança jurídica, a pressão de empreendimentos extrativistas e a criminalização de líderes impedem a ação climática efetiva.

Autonomia na Crise: A Resposta dos Povos ao Abandono Estatal

A abertura da mesa destacou que os povos originários não esperam mais pela proteção estatal, mas constroem seus próprios mecanismos de defesa em um contexto de crise.

Apu Jamner, vice-presidente da COICA, enfatizou que os desafios enfrentados pelos povos amazônicos são sistêmicos e globais.

“Como povos indígenas também respondemos a esses sistemas globais que nos afetam,” afirmou. “Nossos ecossistemas respondem não apenas para os nossos povos indígenas, mas para toda a humanidade. Mas as economias hoje em dia desconhecem os direitos dos povos e a integridade física de nossos territórios, deixando dano, pobreza para a vida dos nossos irmãos.”

Em resposta a essa realidade, a estratégia é a articulação e a autonomia. “Hoje os povos indígenas também estão construindo seus níveis de autoproteção porque não nos sentimos protegidos pelos estados, pelos governos”, disse Jamner, citando as organizações autônomas como a melhor forma de se proteger e assegurar a vida de milhões de pessoas.

Vigilância Indígena: A Defesa com Tecnologia Própria

A urgência da autoproteção foi exemplificada por Angel Pedro Valério, do povo presidente do CARE, da selva peruana, que trouxe dados alarmantes: entre 2014 e 2025, foram registrados 35 casos de assassinato de defensores ambientais no Peru.

Em vez de esperar por recursos que não chegam, o povo Asháninka desenvolveu suas próprias ferramentas. Valério apresentou o SAT-CARE (Sistema de Alerta Temprano), uma ferramenta de vigilância indígena que registra alertas em tempo real sobre ameaças como tráfico de terras, drogas e mineração ilegal, e articula respostas junto às comunidades.

“Frente a isso, o que estamos fazendo? Estamos nos autoprotegendo com nossas próprias ferramentas,” explicou Valério.

Somente em 2024 e 2025, o sistema registrou 90 alertas, afetando quase 1.200 pessoas e 273 territórios, e tem sido fundamental para diminuir até mesmo os incêndios florestais. Valério reforçou que os povos não ficarão de braços cruzados, mas desenvolverão suas próprias ferramentas de proteção e autodefesa.

Criminalização e Resiliência pelo Coletivo

O segundo bloco do debate focou na força da articulação e na dimensão histórica e de gênero da criminalização. Dina Júc, autoridade indígena Kitchê da Alianza Mesoamericana de Pueblos y Bosques (AMPB), destacou que a criminalização de defensores na Mesoamérica é severa, mas que a organização territorial é uma resposta eficaz.

“Em Mesoamérica protegemos 8% da biodiversidade global,” disse Dina. Ela mencionou que, nos territórios onde as organizações estão articuladas, a incidência da exploração predatória é menor, um reflexo do poder de se articular e proteger em conjunto.

Arnelio Oliano, jovem da AMPB no Panamá, reforçou que a resistência é uma herança. “Se você não entende o contexto histórico dos povos indígenas, não podes entender o contexto no qual vivem hoje em dia,” afirmou, citando a luta de seu povo, o Kuna, e a importância de cuidar da Mãe Terra, um legado passado de mães para filhos.

Representando o Brasil, Elisa Pankararu (APOINME) conectou a justiça climática diretamente à luta territorial.

“Pensar justiça climática sob a ótica do movimento indígena, abre um leque para essas reflexões, e não dá pra pensar nela sem pensar na questão territorial,” defendeu. “Os golpistas de 1500 fincaram as suas raízes e seus herdeiros ainda estão aqui violando os direitos dos nossos territórios.”

Katrin Rosas, da Amazônia Colombiana, que apontou ainda como a violência territorial atinge desproporcionalmente as mulheres, que são duplamente vulneráveis na relação de desigualdade.

A mesa, que abriu um espaço crucial de intercâmbio de conhecimentos na COP30, foi encerrada por Olimpia Castillo, que concluiu que a Justiça Climática deve ser o tema central da COP e que a articulação autônoma, o conhecimento ancestral e o protagonismo de jovens e mulheres são indispensáveis para exigir compromissos reais dos governos.

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