+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

ARAYARA toma posse no FONTE e cobra urgência e coerência na transição energética às vésperas da COP30

Ao longo desta segunda-feira (03), em Brasília, ocorreu a reunião de instalação do Plenário do Fórum Nacional de Transição Energética (FONTE), mecanismo consultivo da Política Nacional de Transição Energética (PNTE). Após mais de sete meses desde o processo eleitoral, o FONTE iniciou efetivamente suas atividades, em um encontro que reuniu representantes do governo federal, iniciativa privada e sociedade civil. Entre as organizações representadas, estiveram o Instituto Internacional ARAYARA, que assumiu como titular na cadeira de Petróleo e Gás, e o Programa Fé, Paz e Clima, que ocupou a vaga referente a povos e comunidades tradicionais. A ARAYARA foi representada por sua diretora executiva, Nicole Figueiredo de Oliveira, com Renata Prata, coordenadora de advocacy e projetos da organização, como suplente. Já pelo Programa Fé, Paz e Clima, tomaram posse Juliano Bueno de Araújo, também diretor técnico da ARAYARA, como titular, e John Wurdig, gerente de transição energética, como suplente.

A reunião — realizada a apenas uma semana da COP30 e após meses de atraso na instalação do FONTE — foi marcada por expectativas e também por críticas. Para as organizações da sociedade civil, o intervalo entre a eleição e a posse comprometeu o papel estratégico do Fórum, que deveria ter contribuído previamente para o posicionamento do Brasil na Conferência do Clima, especialmente diante da abertura para exploração de petróleo na Foz do Amazonas e de decisões recentes que reforçaram a expansão fóssil no país.

Em ofício protocolado em 28 de outubro ao MME e ao Plenário do FONTE, a ARAYARA manifestou preocupação com a condução dos workshops do Plano Nacional de Transição Energética (PLANTE) — instrumento que definirá ações e metas de longo prazo para implementar a Política Nacional de Transição Energética (PNTE). A organização destacou que o Plante e o Fórum Nacional de Transição Energética (FONTE) são instâncias complementares: cabe ao PLANTE estruturar o caminho da descarbonização no país, enquanto o FONTE, mecanismo consultivo permanente, existe justamente para assegurar participação social qualificada e apoiar a formulação, implementação e monitoramento dessa estratégia. A entidade, porém, apontou a contradição central do processo: a primeira reunião do FONTE ocorreu ontem, 3 de novembro, enquanto o primeiro workshop do PLANTE está previsto já para o dia 7, impedindo que as instituições eleitas tenham tempo para organizar uma contribuição, comprometendo a qualidade.

O documento também criticou a concentração geográfica das atividades do PLANTE em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, sem contemplar Norte, Nordeste e Sul, o que, segundo a ARAYARA, “exclui e silencia” territórios e comunidades diretamente afetadas pela agenda energética. A entidade ainda cobrou maior acessibilidade e transparência — já que não houve apoio para deslocamento de representantes e tampouco oferta de participação virtual — e alertou para o conflito de agenda com a COP30, em Belém, entre 7 e 13 de novembro, que dificultará a participação de especialistas e lideranças engajadas na Conferência. Por fim, registrou o atraso de mais de sete meses entre a eleição e a instalação do FONTE, período no qual avançaram decisões estratégicas sem debate no âmbito do Fórum, incluindo a 5ª Oferta Permanente da ANP, a licença de teste para exploração de petróleo na Foz do Amazonas e o leilão de contratação de energia a carvão pela Aneel.

Durante a reunião, o suplente John Wurdig apontou lacunas no PLANTE: ausência de diretrizes para descomissionamento de térmicas, tratamento de passivos ambientais e contaminações. Defendeu incluir a Lei 14.029 — que, segundo ele, “faz a transição do carvão para o carvão” — e citou a ADI 7095 da ARAYARA, lembrando que o próprio MMA já questionou a constitucionalidade da norma. Alertou para a construção de políticas “pró-fóssil” e cobrou metas e prazos claros para a saída dos combustíveis fósseis, além de maior ênfase a “emergência climática”, trabalhadores e Acordo de Paris, termos pouco presentes no texto preliminar.

Para a diretora executiva da ARAYARA, Nicole Figueiredo de Oliveira, a instalação do FONTE tem o desafio de enfrentar a desconexão que existe entre o discurso oficial e a prática no campo da transição energética. “O desafio está lançado com a primeira reunião do FONTE, fórum nacional de transição energética que tem uma representação tripartite entre governo, sociedade civil e setores privados, tendo a elite do pensamento e gestão energética do Brasil presentes! O papel da sociedade será crucial em alinhar investimentos, tecnologias e o enfrentamento à crise climática que tem os combustíveis fósseis como sócios.”

Representando o Programa Fé, Paz e Clima, Juliano Bueno de Araújo reforçou a importância da participação social e da centralidade dos territórios nos debates. “Vejo um momento histórico na construção de um novo capítulo sobre a transição energética justa, sustentável e verdadeira que o Brasil tanto demanda e necessita. O desafio é grande, e a sociedade está pronta para dizer o que necessita e demanda para o governo e para o setor privado.”

A sessão de instalação foi realizada no auditório do Observatório Nacional da Transição Energética no MME, e apresentou o regimento interno e o plano de trabalho preliminar para 2026. Tanto ARAYARA quanto o Programa Fé, Paz e Clima afirmaram que atuarão de maneira propositiva e vigilante para garantir que o FONTE cumpra seu papel de orientar políticas públicas com base na ciência, na participação social e na justiça climática — princípios essenciais para o Brasil avançar rumo a uma transição energética verdadeiramente justa, democrática e alinhada aos compromissos climáticos internacionais.

 

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Instituto Internacional ARAYARA integra litigância climática no STF contra retrocesso histórico da Lei de Licenciamento Ambiental

O Instituto Internacional ARAYARA ocupa papel de protagonismo na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) protocolada no Supremo Tribunal Federal (STF) contra dispositivos centrais da Lei nº 15.190/2025, conhecida como Lei Geral do Licenciamento Ambiental, e da Lei nº 15.300/2025, que institui o chamado Licenciamento Ambiental Especial. A ação foi proposta pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e pela Articulação dos

Leia Mais »

Na defesa das usinas nucleares falta argumento, sobra mediocridade

Heitor Scalambrini Costa Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco Zoraide Vilasboas Ativista socioambiental, integrante da Articulação Antinuclear Brasileira   Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3 e constrói mais 10.000 MW de novas usinas nucleares, como propõe o Plano Nacional de Energia 2050, a mediocridade dos argumentos pró

Leia Mais »

Aviso de Convocação – Assembleia Geral Ordinária

O Instituto Internacional ARAYARA convoca os(as) associados(as) com filiação regular e quites com as taxas anuais e remidas, e que estejam em pleno gozo de seus direitos estatutários, para a Assembleia Geral Ordinária a ser realizada em formato híbrido no dia 18 de dezembro de 2025, às 18h30 em primeira chamada e às 19h00 em segunda chamada. A participação poderá

Leia Mais »

Audiência pública sobre o fracking no STJ : uma das maiores ameaças à saúde humana e prejuízos ao agronegócio e às mulheres do Brasil

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) sedia, no dia 11 de dezembro de 2025, uma audiência pública de importância crucial para o futuro energético e ambiental do Brasil. O evento coloca em debate a exploração de gás de xisto (shale gas) por meio do fraturamento hidráulico (fracking), uma técnica não-convencional que, segundo dados e subsídios científicos compilados pelo Instituto Internacional

Leia Mais »