+55 (41) 9 8445 0000 arayara@arayara.org

Exploração de Petróleo e Gás no Mato Grosso do Sul ameaça povos indígenas, ecossistemas e o setor do agronegócio

Técnica do fraturamento hidráulico (fracking) pode gerar bilhões em prejuízos e comprometer exportações agrícolas

Quase quatro meses após o 5º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão (OPC), promovido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), os impactos da expansão da fronteira de petróleo e gás seguem provocando preocupação em regiões de alta sensibilidade ambiental e social. Além de chamar atenção para a concentração da maior parte dos 172 blocos ofertados na bacia da Foz do Amazonas, o Instituto Internacional ARAYARA também destaca um novo foco de preocupação: o avanço da fronteira de exploração de petróleo e gás no Mato Grosso do Sul.

De acordo com dados do Monitor Amazônia Livre de Petróleo e Gás, 23 blocos de exploração estão localizados em território sul-mato-grossense. Desses, quatro já foram contratados pela Eneva S.A. — arrematados em 2021 — e outros 19 estão em fase de estudo para futuros leilões.

Especialistas da área ambiental, lideranças indígenas, pesquisadores e representantes do setor agroexportador têm se posicionado contra a expansão da fronteira fóssil. Eles denunciam retrocessos na política energética e alertam para o uso da técnica de fraturamento hidráulico, conhecida como fracking, que tem sido associada a uma série de danos ambientais e sociais em outros países.

Empresas como Cheniere e TotalEnergies — grandes fornecedoras de gás importado para o Brasil — já admitem o uso da técnica de fraturamento hidráulico (fracking) em seus processos. Parte desse gás chega à Amazônia, por meio de distribuidoras como a New Fortress Energy, instalada em Barcarena (PA), aprofundando a dependência do país em relação a essa prática controversa.

“É um retrocesso grave. Em vez de priorizar energias limpas e seguras, o Brasil aposta em fontes ultrapassadas e perigosas, colocando em risco ecossistemas inteiros e as comunidades que dependem deles”, afirma Nicole Oliveira, diretora executiva da ARAYARA e doutora em Direito Internacional.

Áreas protegidas e territórios indígenas ameaçados

Dados revelados pela ARAYARA também indicam que 10 dos blocos previstos se sobrepõem diretamente a nove Unidades de Conservação. Um dos blocos atinge ainda a área de influência direta da Terra Indígena Ofayé-Xavante, em Brasilândia (MS).

Segundo o gerente de Geociências da instituição, George Mendes, esses projetos violam direitos constitucionais de povos originários e ameaçam ecossistemas de alto valor ambiental.

“É uma ameaça direta à biodiversidade e às populações tradicionais. Além disso, a região faz parte da Bacia Sedimentar do Paraná, onde a principal técnica de extração viável seria o fracking — altamente destrutivo e ainda sem regulamentação adequada no Brasil”, explica.

Mendes pontua que apesar das evidências de risco, o Governo Federal mantém o programa Poço Transparente, criado para testar a aplicação da técnica no país. Embora o projeto ainda não tenha sido executado, ambientalistas alertam que isso abre caminho para a futura liberação do fracking em larga escala.

Fracking: riscos para o meio ambiente, a saúde e o agro

A técnica do fraturamento hidráulico, amplamente utilizada nos Estados Unidos e Argentina, é associada à contaminação de aquíferos, aumento de abalos sísmicos, emissão de gases de efeito estufa, além de riscos diretos à saúde pública e à agricultura.

O uso intensivo de água e o descarte de resíduos tóxicos levantam preocupações especialmente no contexto brasileiro, onde parte dos blocos está sobre áreas agrícolas, terras indígenas e aquíferos estratégicos, como no caso da Bacia Parecis (MT), uma das principais regiões produtoras de soja do país.

Juliano Bueno, diretor técnico da ARAYARA, doutor em riscos ambientais e conselheiro do Conama ressalta que além dos impactos diretos ao meio ambiente e à saúde, a presença do fracking em áreas produtoras pode comprometer licenças fitossanitárias e selos de exportação, afetando diretamente a competitividade do agronegócio brasileiro nos mercados europeu e asiático.

“Estamos falando de uma técnica que pode comprometer a segurança hídrica, gerar perdas bilionárias ao setor agroexportador e ainda colocar em risco a reputação ambiental do Brasil no comércio internacional”, alerta.

Mobilização nacional contra o fracking

Desde 2014, a Coalizão Não Fracking Brasil (COESUS), coordenada pela ARAYARA, atua em defesa da proibição do fracking no país. Com mais de 1.800 atividades de mobilização e campanhas em 17 estados, o movimento já conseguiu instituir moratórias técnicas e leis municipais em mais de 520 cidades brasileiras.

Segundo Bueno, a própria ANP já admitiu desconhecer os impactos do fracking no solo brasileiro. “Não podemos repetir os erros de outros países”, reforça  Bueno.

A pressão contra o fracking tem ganhado força também no Legislativo. A Assembleia Legislativa da Bahia no início deste ano um projeto de lei que proíbe a técnica, seguindo o exemplo de Paraná, Santa Catarina e outros estados onde iniciativas semelhantes estão em tramitação.

Atualmente, mais de 250 deputados estaduais e federais, 1.500 vereadores e 700 prefeitos já manifestaram apoio à proibição do fracking no Brasil. Por outro lado, o Governo Federal e a ANP seguem defendendo os leilões como estratégias para atrair investimentos e gerar empregos, apesar de especialistas contestarem essa narrativa.

“ O discurso de progresso não pode mascarar os impactos irreversíveis ao meio ambiente, à saúde e à economia nacional.  “O Rio de Janeiro é o estado mais explorado pela indústria do petróleo, e ainda assim enfrenta altos índices de desigualdade e violência. Que tipo de desenvolvimento é esse?”, questiona Bueno.

Foto: reprodução/ Flickr

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Posts Recentes

Receba as atualizações mais recentes

Faça parte da nossa rede

Sem spam, notificações apenas sobre novidades, campanhas, atualizações.

Leia também

Posts relacionados

Na Mídia | Flexibilização do licenciamento ambiental entra em vigor nesta quarta com ações no STF alegando inconstitucionalidade

Derrubada de 56 vetos de Lula pelo Congresso restituiu ao texto dispositivos que ampliam modalidades simplificadas, reduzem a participação de órgãos setoriais e restringem exigências previstas em normas anteriores Por Luis Felipe Azevedo — Rio de Janeiro – O Globo   A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que flexibiliza o processo de concessão de licenças, entrou em vigor nesta quarta-feira, 180

Leia Mais »

Na mídia | Fracking: STJ pode avaliar uso de técnica controversa e redefinir exploração de gás neste semestre

Processo que discute viabilidade jurídica e condições técnicas para o fraturamento hidráulico foi instaurado pelo tribunal após 11 anos de impasse; tema mobiliza mais de 500 municípios brasileiros Por: Gabriela da Cunha –  Estadão.com Com a volta do ano judiciário, em fevereiro, o STJ pode levar a julgamento, ainda neste semestre, a ação sobre o uso do fracking no País.

Leia Mais »

Na mídia | Mapa do caminho: sociedade civil propõe diretrizes para que plano de transição energética vá além da retórica

Por Luciana Casemiro – O Globo (28/01/2026) Termina na próxima sexta-feira o prazo dado pelo presidente Lula para que sejam estabelecidas as diretrizes para o plano transição energética no Brasil. O chamado mapa do caminho para o fim da dependência dos combustíveis fósseis foi uma proposta apresentada pelo governo brasileiro durante a COP, realizada em Belém, em novembro do ano

Leia Mais »

NA MÍDIA | Projeto da maior usina termelétrica do país é vetado pelo Ibama por falta de informações conclusivas

Usina Termelétrica São Paulo seria construída em Caçapava e era alvo de protestos de ambientalistas; Fiocruz apontava ameaças à saúde   Por Lucas Altino — Rio de Janeiro – O GLOBO   O projeto do que seria a maior usina termelétrica do país e da América latina, em Caçapava (SP), foi vetado pelo Ibama. Nesta quarta (21), o Instituto indeferiu

Leia Mais »